• Camila Machado e Vinícius Sabbag

The Great Resignation: as pessoas desistiram de trabalhar?



Apesar do termo "a Grande Demissão" relacionar-se com o período da Grande Depressão iniciada em 1929, no qual eram comuns filas quilométricas de desempregados, ele também diz respeito a um conjunto de eventos com desdobramentos um tanto diferentes daqueles de quase um século atrás. O termo, usado pelo professor Anthony Klotz da Texas A&M University em uma entrevista fornecida à Bloomberg, descreve o que se deveria esperar para os meses posteriores a abril do ano passado.


Em abril de 2020, a taxa de desemprego americana encontrava-se em 14.7%, com número de demissões voluntárias em aproximadamente 2 milhões. Um ano depois, enquanto o desemprego apresentava números melhores, em torno de 6%, os pedidos de demissão voluntária quase dobraram, chegando a 3 milhões e 992 mil. Esse número continuou a elevar-se ao passo que o desemprego retornava ao seu patamar pré-pandêmico, de forma que a rápida mudança no cenário do mercado de trabalho deu início à Grande Demissão.


As causas deste fenômeno são variadas e vão desde motivos sociais e comportamentais até questões de saúde e estruturais.


De maneira mais direta, diversos trabalhadores foram motivados por mudanças em suas listas de prioridades a procurar melhores oportunidades, como mostra uma pesquisa realizada pelo economista-chefe de pesquisas da “Gallup Poll”, Jim Harter. Com a pandemia, questões relacionadas à saúde física e mental, contato com a família e qualidade de vida passaram a sobrepor-se à ambição do trabalho “nine-to-five”, questão evidenciada pelo achado de Harter, no qual pessoas que se classificaram como “struggling” (esforçando-se excessivamente) ou “suffering” (sofrendo) costumavam ter um turnover duas vezes maior, com ciclos menores em seus empregos (link).


Outro fator comportamental trazido à tona pela pandemia foi a praticidade do trabalho à distância. Isso tem sido um fator negativo para a retenção de funcionários, os quais, muitas vezes, não desejam voltar ao trabalho totalmente presencial. Nesse sentido, a entrevista de Charlie Munger para a repórter Alexandra Semenova, na qual afirma “nós nunca mais voltaremos para uma semana de trabalho de cinco dias no escritório”, está de acordo com o achado de uma pesquisa com 10,000 trabalhadores dos setores de finanças, tecnologia e energia em que 84% dos respondentes declaram a vontade de manter o modelo remoto por dois ou mais dias da semana. O fato é: a rigidez de contratantes contra maior flexibilização pode prejudicar setores em uma situação atual de demanda por trabalho muito maior que a oferta deste fator (link).


Contudo as preferências dos trabalhadores com certeza não são os únicos fatores que determinam a quantidade de demissões ou a taxa de desemprego. As "regras do jogo" que definem as estruturas dos mercados de trabalho são parte importante dessa equação, caracterizando-se como mais ou menos protecionistas, a depender do país. A sua análise é complexa e, portanto, pretende-se avaliar brevemente as consequências de um sistema mais ou menos protecionista, bem como sua relação com as taxas de desemprego e os volumosos pedidos de demissão de atualmente, o que é objeto de um intenso debate na academia.


Economistas ortodoxos acreditam que um mercado com maior proteção (com sindicatos e direitos trabalhistas mais fortes, salário mínimo mais alto...) leva a um persistente desemprego alto, já que tornaria mais custoso tanto a manutenção dos empregados quanto a demissão destes. A volatilidade do desemprego diminuiria, já que é mais difícil demitir e, consequentemente, contratar. A redução dessa proteção e a simplificação do mercado, para eles, poderia ser uma saída de um ambiente de desemprego alto. Os heterodoxos, via de regra, acreditam que a proteção é importante, já que o patrão muitas vezes tem mais poder de barganha do que o trabalhador e o desemprego é afetado por inúmeros outros fatores, não sendo a proteção trabalhista necessariamente o mais importante.


Primeiramente, é importante observar se há indícios de que mercados “mais protegidos” são menos voláteis. Como estamos analisando o fenômeno da Grande Demissão pós-pandemia, analisaremos a variação da taxa de desemprego em dois períodos: (1) entre fevereiro (pré-pandemia) e julho (pico do desemprego na média dos países) e (2) entre abril de 2020 e abril de 2021, quando observamos o número de demissões quase dobrar. Assim, construímos gráficos de dispersão relacionando, em países da OCDE, essa variação ao índice de rigidez de proteção do trabalhador de demissões (média dos últimos de 2000 a 2019).



Foi verificada uma correlação de -0.63 e 0.61 entre a variação do desemprego e a proteção laboral nos períodos de Fevereiro 2020 a Julho 2020 e Abril 2020 a Abril 2021, respectivamente. Assim, essa amostra de dados pode apontar para uma relação de certa forma intensa entre as duas variáveis nesse período.


Utilizando a mesma base de dados, podemos construir também gráficos de dispersão relacionando as médias de 2000 a 2019 das taxas de desemprego e do índice de proteção.


Há uma correlação de 0.18 entre as variáveis para esse período, o que não configura uma relação forte, sendo esse apenas um exemplo de como é difícil tirar conclusões nesse debate sem considerar outras variáveis de cunho social ou comportamental, por exemplo, únicas a cada população.


Portanto, uma vez analisadas as possíveis causas da Grande Demissão, é importante passar à análise das respostas estatais ao turbilhão que vivem os mercados de trabalho desde o início da pandemia e como elas podem ter colaborado para essa situação.


No que tange a inflação e os choques de demanda a ela relacionados, sabe-se que a solução adotada pelo governo americano e muitos outros governos para auxiliar o grande número de desempregados foi uma expansão dos seus programas de auxílio desemprego, bem como incentivos aos pequenos negócios. Na época, uma matéria de junho de 2020 dizia: “Nos Estados Unidos, benefícios extras para desempregados expiram em julho, fazendo surgir preocupações de que a remoção do auxílio gerará redução nos gastos, machucando negócios e produzindo um novo aumento nas taxas de desemprego”. Sabe-se que o auxílio começou a ser retirado em setembro do ano passado e, até o momento, as taxas de desemprego americanas continuam a diminuir, assim como a dos países europeus que optaram por uma solução diferente: o subsídio dos salários para que as pessoas pudessem manter seus empregos.


O que não estava muito claro na época, contudo, é que esses auxílios, na verdade, causariam um problema de oferta de trabalho. Com maiores benefícios, os trabalhadores tornaram-se, em geral, mais exigentes em relação aos empregos. Eles ganharam poder de barganha e isso pode ajudar a explicar o grande número de auto-demissões observado. A situação chegou a ser tão preocupante que o presidente Joe Biden disse, em maio de 2021, que trabalhadores que recusassem ofertas de trabalho perderiam seus benefícios.


Muito se discute sobre a real culpa dos governos na situação atual e é de fato difícil mensurar esse impacto. Dessa forma, observa-se que a Grande Demissão teve as mais diversas causas e apenas defini-las já é objeto de intenso debate. Assim, a intenção deste texto é dar um panorama histórico e atual para que seja possível entender um pouco melhor sobre por que os mercados de trabalho estão funcionando dessa maneira e quais são seus possíveis panoramas para futuro, ainda mais quando a economia global enfrenta um enorme novo desafio - a Guerra na Ucrânia.