• Leonardo Pamio e Pedro Bovolato

Fiagros: a porta de entrada para o agro na bolsa brasileira




Agronegócio e a necessidade de financiamento


Marcados por sua recente regulamentação e por abranger um dos maiores setores da economia brasileira, os Fiagros tornaram-se um dos assuntos mais comentados dos últimos meses no mercado financeiro e das rodas de conversa dos pequenos investidores brasileiros.


Quando se fala em Fiagro, é imprescindível entender o setor no qual os recursos captados por esse tipo de fundo são alocados. Responsável por mais de ¼ do PIB brasileiro, o agronegócio nacional gera mais de nove milhões de empregos formais e se encontra em vias de expansão. Possui também amplo destaque mundial na exportação de produtos, como a soja (50%), o suco de laranja (75%) e o café (33%), e ainda representa 4 em cada 10 dólares exportados pelo Brasil.


O setor agro é um dos poucos que apresenta uma balança comercial superavitária dentro do panorama brasileiro, gerando maior fluxo de caixa para o mercado interno do país. O Brasil assume o quarto lugar mundial referente à exportação de produtos agropecuários, os quais somam mais de 100 bilhões de dólares - atrás apenas da União Européia, EUA e China. Além disso, o setor mostrou-se extremamente resiliente durante a pandemia da Covid-19: enquanto o PIB recuou 4.9%, este foi o único que apresentou crescimento em 2020 (2.0%). Isso se deve, especialmente, à sua importância na cadeia produtiva e aos seus ganhos de produtividade no país, os quais, atualmente, estão em torno de 3.18% ao ano, o maior do mundo. Além da produção de alimentos, o agronegócio hoje é responsável por produzir biocombustíveis como o etanol e o biodiesel que movem o país, além de produzir matérias primas para as roupas, móveis, caixas de papelão e até mesmo as vacinas usadas durante a pandemia.


No entanto, apesar de sua importância para o país e para o mundo, o financiamento da produção agrícola brasileira é pouco diversificado. Enquanto na bolsa brasileira, as empresas agro listadas compõem apenas 10.8% do Ibovespa, a outra forma de financiamento é através de programas de subsídios do Estado. Entre eles, o Plano Safra, um subsídio criado pelo governo brasileiro que soma R$ 340.8 bilhões para apoiar a produção agropecuária brasileira a fim de garantir taxas mais baixas aos produtores. Com isso, surge a necessidade de uma nova modalidade que acompanhe a expansão do agronegócio e facilite o investimento neste setor.


Uma nova possibilidade: os Fiagros

Dada a importância do setor agropecuário para a economia brasileira, é necessário que esse segmento tenha as melhores condições de financiamento possíveis para garantir um processo produtivo ainda mais eficiente e lucrativo - e é aqui que os Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais, popularmente conhecidos como Fiagros, ganham destaque. Criados em março de 2021, esses fundos têm como objetivo captar recursos de investidores para serem aplicados em ativos que compõem o sistema do agronegócio.


A nova regulamentação permite que pequenos investidores tenham acesso ao mercado agropecuário de modo mais fácil e com menores aportes financeiros, o que democratiza o acesso a investimentos que, até então, eram reservados a uma diminuta parcela do mercado. Além disso, a partir desse mecanismo, o pequeno investidor ganha a possibilidade de terceirizar suas decisões a grandes gestores, com vasta experiência nesse mercado e melhor capacidade de selecionar os melhores investimentos.


No mercado brasileiro existem três tipos diferentes de Fiagro regulamentados: os de Direitos Creditórios (Fiagro-FIDC), os Imobiliários (Fiagro-FII) e os de Participações (Fiagro-FIP). Os Fiagros de Direitos Creditórios têm foco no adiantamento de recebíveis da indústria agropecuária. Como a receita não é recorrente no agronegócio, devido à sazonalidade da produção, é necessário captar recursos através desse tipo de fundo para que não haja falta de liquidez em datas importantes, como o período de plantio. Dessa forma, entende-se que os FIDCs são necessários para a manutenção de um bom fluxo de caixa dentro do setor.


Já os Fiagros Imobiliários têm como objetivo o investimento em terras agrícolas para a valorização e rentabilização de fazendas por meio de arrendamentos. Esse tipo de Fiagro é mais popular porque, além de possuir uma estrutura bastante semelhante aos FII’s de “tijolos”, facilita o acesso ao pequeno investidor. Ainda, vale destacar que o setor de terras agrícolas está em alta, especialmente, pelo contexto de valorização que tais ativos tiveram no país em virtude do aumento dos preços das commodities, da desvalorização do câmbio e do aumento da produtividade agrícola nos últimos anos.


Por fim, os Fiagros de Participações oferecem a possibilidade de adquirir a participação em uma empresa agrícola, o que possibilita o investimento em grandes empresas agrícolas por parte dos pequenos investidores. Estes fundos assemelham-se a fundos de Private Equity, visto que, ao adquirem participação em empresas de capital fechado, melhoram sua produtividade e lucratividade através de seu know-how específico e visam a uma possível venda ou abertura de capital no futuro.


Desse modo, os Fiagros surgem como alternativa para atender a demanda por financiamento que o setor agro exige no Brasil. Pautada no investimento privado, esses novos mecanismos têm capacidade de impulsionar ainda mais o agronegócio, especialmente com a previsão de crescimento do patrimônio dos Fiagros, tendo como benchmarking os Fundos de Investimento Imobiliário tradicionais. Atualmente os Fiagros, apesar de possuírem yields muitas vezes maiores que os FII’s, contam com apenas 69.400 cotistas, enquanto os FIIs abarcam mais de 1.718.000 segundo dados da B3, ainda que a construção civil represente apenas 2.6% do PIB nacional e o agronegócio, em contrapartida, 27.6%. Sendo assim, os Fiagros possuem uma avenida de crescimento bastante clara e até mesmo previsível, devendo seguir os passos já consolidados Fundos de Investimento Imobiliários (FII’s).

Os Fiagros em um ambiente de alta da SELIC

Com a alta da SELIC, muitos investidores migraram da renda variável para títulos do governo em busca de maior segurança, o que causou forte queda no mercado de ações e desinvestimento em mercados "mais arriscados", como o de Venture Capital. Apesar disso, por possuírem muitos de seus contratos indexados ao CDI, o cenário de aumento na taxa de juros pode contribuir para maiores retornos dos Fiagros, especialmente por fundos que possuem Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA’s) na carteira e que estão expostos a bons pagadores.


Assim, o momento pode ser oportuno para os Fiagros, que apesar de também terem sofrido com a saída de capital da renda variável, gerando um ambiente de cotas mais baratas e dividendos mais altos, responderam bem ao aumento de juros. Após a estabilização das taxas de juros, e sua possível queda, fundos que exploram e desenvolvem terras devem ganhar maior notoriedade e atrair mais cotistas.


Além disso, muitos fundos são pagos por meio de parte da produção, com exposição à alta do dólar e também ao preço das commodities. Tais contratos funcionam de maneira fixa, oferecendo um número acordado de sacas de soja, café etc. como pagamento aos arrendamentos realizados em contrapartida.


Perspectiva para os Fiagros

Em suma, além de ter seus investimentos direcionados ao setor que representa importante fatia do PIB, crescer a passos largos e ter sua exposição menos relacionada aos fatores internos, o crescimento dos Fiagros se apoia na falta de representatividade do agronegócio brasileiro no mercado de capitais e na concentração por parte do Estado no financiamento de suas produções. Portanto, é possível vislumbrar um futuro no qual o agronegócio estará mais exposto à bolsa de valores, com pequenos investidores detendo importantes fatias do mercado. Logo, quando se analisa o tamanho do mercado do agronegócio e suas perspectivas de crescimento, o mercado de Fiagros encontra no Brasil solo fértil para sua expansão.