Rotação de carteiras


O termo “rotação de carteiras” é constante nos noticiários econômicos, ante o cenário de retomada da crise econômica causada pela Covid 19. Esse movimento ocorre no sentido de alocações em ações de valor, em detrimento das de crescimento. Mas afinal, qual o significado dessas distinções? E por quê esse movimento acontece? Antes das definições, é importante entender como surgiu o conceito histórico de ação de uma empresa. As ações surgem junto ao conceito de sociedade anônima, na Holanda do século XVI. A exploração ultramarina exigia muitos recursos, que não podiam ser arcados por um único empresário. A união de diversos empreendedores, que contavam com suas ações (garantias dos futuros lucros da companhia), tornou possível essa empreitada. O resultado não poderia ter sido melhor: a Companhia Unida Holandesa das Índias Ocidentais distribuiu praticamente todos os seus lucros aos seus acionistas a uma taxa média anual de 16,5% durante sua existência.


Sendo assim, tendo em vista suas origens históricas, as ações têm a função de fornecer dividendos aos seus investidores. Com as escusas das generalizações, esse é o viés de um investidor de valor, que compra ativos com uma relação preço/lucro baixa, com a expectativa de retornos próximos ao valor justo, calculado com base em análises fundamentalistas. Essas ações são de setores mais cíclicos da economia, como bancos, petrolíferas, mineradoras e empresas de energia.


Já as ações de crescimento são aquelas analisadas com menos rigor, no que tange aos seus fundamentos, pois estão sujeitas ao fenômeno da disrupção e podem ganhar escala em velocidades pouco previsíveis. A ideia do investidor de ações de growth é encontrar empresas inovadoras, com horizontes de expansão pouco definidos. O preço a se pagar nessa aposta é alto, com relação preço/lucro de suas ações elevadas e pagamentos de dividendos muitas vezes inexistentes. No entanto, casos como os do Facebook, Netflix e Amazon fazem esse preço valer muito a pena.


O gráfico abaixo mostra que, no longo prazo, as ações de crescimento são mais voláteis.


Fonte: Economatica, Elaboração própria.


No entanto, quando analisamos a disparidade do indicador preço/lucro das ações de growth, ante as ações de valor recentemente, a conclusão é de que essa exposição maior ao risco pode compensar. As ações da petrolífera Exxon Mobil Corp Com, por exemplo, estão sendo negociadas a um múltiplo negativo, enquanto os papéis da Netflix mostram-se mais valorizados.


Fonte: Economatica, Elaboração própria.


A rotação atual de carteiras ocorre devido à possível recuperação de setores cíclicos da economia, com o avanço da vacinação. No início da pandemia, as ações de tecnologia, que em grande parte são de growth, foram beneficiadas em uma conjuntura na qual quase todos os serviços foram digitalizados devido ao distanciamento social. Esse fenômeno pode ser observado no aumento do preço/lucro das ações na área sombreada. No entanto, a volta dos consumidores às ruas pode movimentar novamente os setores cíclicos da economia e as atuais cotações das ações de valor podem ser percebidas como descontos. Sendo assim, essas distinções servem apenas para nomear estratégias diferentes de investimentos para momentos diferentes da economia. O investidor nunca estará livre do risco quando entra no mercado de capitais e sempre procura maximizar seus rendimentos, seja através da venda das ações por um preço maior, ou pelo recebimento de dividendos. No final, o que importa é uma tese de investimento sólida, e a história mostra isso. A invenção bem sucedida dos holandeses foi rapidamente exportada para a França, pelo escocês John Law, um gênio imperfeito viciado em jogos de azar. A Companhia do Mississipi foi fundada em 1717 com o objetivo de extrair as riquezas da América e, para isso, buscou financiamento através da emissão de ações para o povo francês. A valorização dos papéis foi rápida e os franceses, cada vez mais empolgados com a chance do enriquecimento fácil, não queriam nem sequer participar do processo colonizador. A saída foi o recrutamento de alemães, que ao chegarem na terra prometida encontraram os pântanos hostis. A morte de aproximadamente 80% dos colonos não demorou a reverberar na Europa e rapidamente a bolha estourou. O monopólio de um comércio que nem sequer existia não tinha valor nenhum.

A julgar pelos meios de informação rudimentares do século XVIII, pode ser compreensível o erro dos investidores da época. O mais intrigante é entender o motivo das bolhas contemporâneas, na era da informação na velocidade da luz. A resposta talvez esteja na qualidade das informações, que são mais importantes que a quantidade delas.


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