O fim do monopólio da B3 está próximo?



Dentre as diversas possibilidades de investimento, desde tornar-se sócio de uma empresa farmacêutica até arbitrar no mercado de opções, há apenas um meio para investir em empresas de capital aberto no Brasil: recorrer à B3. E, assim como tudo no mercado financeiro, isto não ocorre ao acaso.


A empresa, como conhecemos hoje, surgiu de uma sequência de fusões e aquisições, as principais sendo a fusão da BM&F e da Bolsa de Mercadorias de São Paulo, em 1997, seguida da fusão com a Bolsa de Valores de São Paulo, em 2008, e, por último, a aquisição da Cetip em 2017, quando, finalmente, foi nomeada como B3.


Realmente, a história da Bolsa de Valores veio de um passado relativamente pulverizado para um presente altamente concentrado, com cerca de 340 empresas listadas (incluindo ela mesma – B3SA3), e com prognóstico de continuidade de um monopólio duradouro. Ou será que não?


Rumores sobre uma competidora de peso para a empresa circulam há tempos no mercado, mas, em décadas, nada aconteceu. No entanto, no longo prazo, há indícios para crer que este cenário possa mudar com a possibilidade da entrada de outros players nacionais e da concorrência internacional.


Para compreender melhor esse mercado, é necessário desmistificar alguns aspectos da B3. Como a empresa cobra uma taxa pelo uso da sua plataforma de negociação, é razoável pensar que sua receita virá, quase que completamente, desta fonte. No entanto, constata-se que somente 10% de sua receita provém desse meio, enquanto relevantes 70% advêm da, muito menos conhecida, função de Compensação e Liquidação. Essa função, crucial para o mercado financeiro, funciona da seguinte forma: a B3 cobra uma Tarifa de Liquidação pelo risco de receber um calote das corretoras em um possível cenário de instabilidade. Essa tarifa é paga pelos próprios investidores (compradores e vendedores).


Essa função, tão estimada pelo Banco Central para o funcionamento da economia, representa uma barreira de entrada fortíssima para possíveis concorrentes, que, dificilmente, possuiriam caixa para aguentar um possível calote massivo em situação de crise. Vale ressaltar que, embora a B3 seja a única autorizada pela regulação atual a fazer esse papel, nada impede, pelo menos legalmente, que novos entrantes peçam autorização e pratiquem essa função.


Mesmo diante dessas perspectivas adversas, há rumores de outra competidora que estaria pronta para entrar nessa área: a XP Inc. Tudo começou com um relatório do JP Morgan que citava a possibilidade de concorrência à B3 por uma possível bolsa de valores da XP. Tais rumores foram estimulados pela saída do executivo da XP, José Berenguer, do conselho da B3, devido a um suposto conflito de interesses.


Rapidamente, o mercado reagiu à notícia com uma queda de 8 bilhões (10%) no market value da B3. A ameaça de um novo entrante bem consolidado no mercado de capitais foi vista como um grande risco para a futura geração de caixa da atual bolsa de valores. De fato , com um total de 3 milhões de investidores cadastrados, um valor de mercado de R$ 147,7 bilhões, e representando 20% das operações de ações, a magnitude da XP não pode ser desconsiderada.


Entretanto, mesmo com números favoráveis, ainda é difícil prever uma possível entrada da empresa no mercado de Bolsa de Valores. Isso porque a XP já enfrenta grande concorrência de vários bancos digitais brasileiros, especialmente do BTG, o que diminui as chances de entrada em um novo mercado.


Ademais, outras empresas começam a mostrar disposição para entrar nesse mercado monopolizado ou, pelo menos, em algumas de suas áreas. Com a recente resolução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Market 2 Market (M2M), empresa que oferece uma plataforma de gestão de operações financeiras, finalmente recebeu a permissão para atuar como central depositária de Certificado de Recebíveis Agrícolas (CRA). Em outras palavras, tem carta-branca para atuar no mercado de custódia e liquidação de títulos, atividade na qual a B3 detinha exclusividade. Assim, é evidente que a empresa se mostra confiante para que, em um futuro próximo, venha a trabalhar com ações. Segundo Rodrigo Amato, CEO da M2M, com uma estrutura de depósito e liquidação de títulos bem desenvolvida, a empresa poderá vir a prestar serviços a uma potencial bolsa concorrente da B3.


Por outro lado, saindo do território nacional, já existe uma concorrente que parece estar à altura da B3. A Nasdaq, há anos, cresce como opção para as empresas brasileiras, o que ocasionou uma onda de IPOs em território norte-americano. Entre algumas das possíveis razões para este movimento, está a permissão da existência do voto plural nos EUA, algo proibido no Brasil.


Esse dispositivo permite que o peso do voto dos fundadores seja maior que o dos investidores em empresas de sociedade anônima. Tal característica atrai empresas de tecnologia com uma cultura de confiança nos fundadores, os quais carregam a visão do empreendimento. Para aproveitar esta oportunidade, empresas como XP, PagSeguro e Afya Educacional já têm ações listadas na Nasdaq e outras, como Americanas, estão planejando a viagem.


Seja brasileira ou estrangeira, as vantagens da concorrência são claras para o investidor: menores taxas transacionais, incentivo para melhor atendimento ao cliente e diminuição de empecilhos técnicos que afetem os investidores. Neste último ponto, a B3 vem deixando a desejar. No dia 11 de junho deste ano, por exemplo, a empresa apresentou problemas tecnológicos que prejudicaram o investidor ao não mostrar em tempo real operações feitas no dia anterior. Contratempos como este acarretariam ainda mais prejuízos à empresa caso houvesse uma concorrente a altura.


Na verdade, o Brasil ainda é o único país entre as 15 maiores economias do mundo que detêm apenas uma bolsa. Nos EUA, são 13, no Canadá, 5, e na Espanha, 4. Além do mais, podemos citar o exemplo do México, um país emergente e sul-americano, como o Brasil, que em 2018 quebrou o monopólio da Bolsa Mexicana de Valores (BMV) com a nova player BIVA, que ofereceu um sistema mais dinâmico e de menores custos, apresentando benefícios para todos os consumidores.


Ainda assim, a posição da B3 como a big player do mercado brasileiro é sólida. Mesmo com a possibilidade de concorrência nacional e da Nasdaq, o mercado que a B3 ocupa, quase que solitariamente, ainda tem muito o que crescer.


Ao somar todas as contas de pessoa física registradas para investimento direto em ações, temos apenas 3% da população brasileira (4 milhões de CPF´s). Desta forma, a entrada de novos participantes nesse mercado é uma possível tendência para o futuro, tendo em vista o recente crescimento desse mercado, que, só em 2020, apresentou um aumento de 92% no número de investidores cadastrados. Realmente, o histórico de crescimento da B3 indica que, mesmo com a chegada de novos players de peso, o potencial de expansão do segmento é tão grande que a participação da B3 poderia ser ainda maior do que a de hoje.


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