O Crash: a primeira crise moderna

Especulação, aposta ou investimento, como quer que seja chamado, é, basicamente, o ato de utilizar o dinheiro com expectativa de gerar mais dinheiro. Essa explicação não é capaz de esclarecer o escopo de atividades envolvidas nesse processo, mas para simplificar esse texto tratará do mercado financeiro, ou melhor, de um evento dramático desse setor. Para se ter uma ideia, mesmo em um ano de crise como o atual, no primeiro semestre o dinheiro aplicado na bolsa brasileira foi de aproximadamente 4 trilhões de reais, mais da metade do PIB nacional no ano de 2019. Apesar do número parecer elevado, a bolsa brasileira não figura no Top 10 das bolsas mundiais. Isso mostra que esse mercado é tão grande que supera o PIB de muitos países e, algo desse porte, está exposto a momentos de desordem.

A expectativa de que sua aposta ou seu investimento lhe trará retorno não passa disso: expectativa. É por isso que o comportamento dos agentes econômicos gera resultados tão irracionais. Com a solidificação do sistema financeiro, centenas de métodos de tornar previsões mais precisas possíveis surgem e isso pode ser bom, ou ruim. A sensação de segurança e a falta de preocupação com valores estratosféricos envolvidos foi responsável por períodos dramáticos na economia. Porém, é importante ter em vista que esse movimento de mercado é responsável por impulsionar a atividade das empresas e ser o óleo que permite que as engrenagens do sistema de mercado gire. Sendo assim, não se pode tratar essa função tão importante como vilã do mercado. O mais plausível é analisar de forma realista e, para isso, recorrer a outros momentos da história do mercado financeiro pode ser um instrumental importante.

Apesar dessa trajetória ter diversos momentos, a primeira crise econômica moderna ocorreu em 1929, o Crash da bolsa de Nova York. Mas nenhuma crise ocorre de uma hora para outra e, talvez, essa seja uma das frases mais utilizadas quando se trata do mercado. Então, de que forma esse problema iniciou-se? Howard Marks em “The Most Important Thing” e, como parte de sua estratégia de investimento, recorre a uma frase emblemática: o Boom precede o Crash. Ele recorre à analogia do pêndulo, que se move entre esses dois momentos e converge com a teoria de ciclos econômicos utilizada há séculos por economistas no mercado financeiro e no âmbito acadêmico. Momentos de euforia, otimismo e aptidão ao risco, não só de investidores, mas dos bancos e empresários, o bull market, são característicos em booms do mercado, um dos extremos do pêndulo.

Por isso, busquemos entender o Boom da década de 1920. “Os loucos anos vinte”, como ficou conhecida essa década, ocorreram em meio a um cenário de um desenvolvimento econômico exponencial e da expansão da riqueza dos Estados Unidos. A Primeira Guerra Mundial beneficiou o país, o comércio bélico e os empréstimos oferecidos às nações aliadas propiciaram um clima próspero e uma tendência de fortalecimento da economia. O PIB americano cresceu mais de 30% entre 1923 e 1928, segundo a California State University, Northridge (CSUN), como mostra o gráfico abaixo.

Essa expansão tem como uma das causas o modelo fordista de produção criado na década que antecedeu esse período. A produção em larga escala se consolidava na economia norte-americana e, com isso, milhares de empregos foram gerados, atingindo índices baixíssimos de desemprego, como mostra o gráfico abaixo. Pessoas empregadas e diminuição dos preços ilustra o cenário ideal, parecia que a prosperidade nunca iria acabar.

Fonte: Departamento de Trabalho dos Estados Unidos

A ideia de que o mercado era capaz de se autorregular era latente durante esse período e gerou uma atuação irresponsável dos bancos, que ofereciam crédito sem fiscalização. Com isso, grande parte da população passou a ter acesso a carros, eletrodomésticos e conseguiu conquistar a casa própria. Os juros eram baixíssimos e a ânsia por consumir inovações que iam surgindo, como a máquina de lavar louça ligada a uma fonte de água, se alastrava entre a população.

Dessa forma, todos buscavam mais conforto e riqueza e é aí onde o mercado financeiro entra. Por não haver fiscalização efetiva, bancos comerciais de médio e pequeno porte passaram a realizar investimentos sem gestão de risco e o investidor estava extremamente exposto. A facilidade de crédito gerou um comportamento temerário e todos queriam fazer parte da bonança de Wall Street. Os fundamentos eram deixados de lado, as precificações perdiam lastro, o que conduzia a manada de “novos-ricos” era a ganância. A ambição de ser um novo milionário, de ter uma vida de luxo como os grandes especuladores nunca pareceu tão possível à população.

Para se ter uma ideia, a convicção de que a nação havia atingido um estado imparável de prosperidade era tão forte que o presidente da bolsa de valores de Nova York (NYSE), H.H. Simons, disse que “levantava uma voz dissidente contra afirmações de que a prosperidade do país iria diminuir e retroceder no futuro”. No mesmo sentido, o Wall Street Journal, fundado por Charles Dow, revelava que o mercado de ações estava em “forte tendência de alta”, segundo a Teoria Dow, o método de análise gráfica que é a base da análise técnica até hoje. De certa forma, não estava equivocado, só não conseguiu prever por quanto tempo essa tendência se manteria. No dia 3 de Setembro de 1929, o índice Dow Jones atingiu a máxima de 381,17 pontos após uma escalada de mais de 300% durante a década, ápice que não foi superado por 25 anos.

Como foi dito antes, a expectativa de gerar mais dinheiro é só expectativa. Quando os recordes pararam de ser superados, o comportamento dos investidores otimistas começou a perder força. Junto a isso, o consumo das famílias não conseguia mais absorver os inúmeros produtos da indústria e o ambiente de instabilidade começou a se tornar perceptível. Diferentemente de outras crises financeiras, a primeira crise moderna iniciou-se na economia real, no sistema produtivo. O modelo fordista, que propiciou prosperidade ao longo da década, tornou-se um ponto fraco. Como o desenvolvimento dos produtos lhes conferia maior vida útil, a rotatividade diminuiu e a indústria deparou-se com um problema de superprodução.

Essas gigantes que movimentavam bilhões de dólares agora tinham como inimigo o pilar de seu sucesso, sua capacidade de produzir. Além disso, os salários não tinham como subir a ritmos irreais, já que estão atrelados à rentabilidade das empresas. A estagnação do consumo atingiu o sistema em seu ápice. A indústria, como em qualquer momento da história, havia tomado empréstimos para financiar sua expansão, mas, sem a possibilidade de pagar, sufocava um sistema bancário já débil. Como tudo que anda bem pode piorar, o que é ruim também pode. Os países europeus não conseguiam se recuperar da Primeira Guerra e a dívida com os Estados Unidos não podia ser paga, o que dificultava a situação financeira de muitos bancos.

A crise do sistema produtivo ratificou as incertezas que pairavam sobre Wall Street, se antes as ações subiam por conta do lucro das empresas, esse lucro já não poderia servir de lastro. Os grandes investidores passaram a operar vendidos, isto é, buscavam o lucro com a queda das ações e os bancos precisavam do pagamento dos empréstimos aos investidores. O que antes parecia ideal, o caminho certo para a prosperidade, tornou-se o epicentro do problema.

Em 24 de outubro de 1929, data conhecida como Quinta Feira Negra, a bolha estourou e o pêndulo atingiu seu outro ápice, o Crash. Estima-se que o mercado perdeu 4 bilhões de dólares naquele dia, com 13 milhões de ações sendo vendidas a qualquer preço, como ativos da General Motors, empresa blue chip, que perdeu 22% do valor em três dias. O índice Dow Jones caiu 11%, investidores experientes se reuniram para buscar uma solução e foi necessário um grande número de policiais para conter o pânico em Wall Street. A estratégia de grandes bancos como o Chase National Bank, o Bankers Trust, a Casa Morgan e o National City Bank foi reunir caixa e comprar papéis, o que mascarou o problema.

Porém, os bancos comerciais menores, que investiam sem fiscalização, para conter as perdas começaram a pedir garantias dos investidores, que caso não pagassem teriam seus ativos liquidados, e foi o que aconteceu. A compra dos grandes bancos restringiu-se aos ativos de maiores volumes, aos papéis que compunham o Dow Jones, porém os ativos que eram mais especulados não fizeram parte dessa movimentação e compunham as carteiras dos então devedores. Conclusão: na segunda e terça feira seguintes o índice somava queda de 23%.

Inúmeras foram as consequências que se arrastaram pela década vindoura, o desemprego atingiu 25% da população americana, mais de 9 mil bancos e 100 mil empresas faliram, o número de carros vendidos reduziu-se de 4,5 milhões para 1,1 milhão em 1932, além das drásticas consequências para os estados do Sul, que dependiam da agricultura, setor muito sensível ao mercado. A queda do PIB no período está ilustrada no gráfico abaixo.

Fonte: até 1928 Califórnia State University, Northridge; a partir de 1929 Escritório de Análise Econômica dos EUA


Ao atingir o Sul, a crise impulsionou a criação do movimento de supremacistas brancos Klu Klux Klan, que buscavam algum culpado e, paralelamente, ao atingir a Europa, deu origem a regimes totalitários, como o Nazismo, que ganhou força com a crise econômica e gerou consequências históricas que todos conhecem. A semelhança das consequências da Crise de 1929 tem origem na oposição ao ideal liberal, à não intervenção estatal e principalmente à liberdade do setor financeiro de atuar conforme regras próprias. A solução encontrada nos EUA foi o New Deal, que baseou-se em uma série de investimento do governo americano, ação recorrente em crises no país e uma postura intervencionista por parte de Franklin Roosevelt, entre elas o fechamento de todos os bancos durante 4 dias.

Desse modo, talvez possamos perceber que o Boom é algo perceptível quando já se passou muito tempo, mas não enquanto ele está acontecendo, já o Crash é notado nos preços, no desemprego, no consumo e não é necessário ser um grande conhecedor de temas econômicos para saber quando as coisas andam ruins. Recorrer a outros momentos históricos é uma recorrente forma de estudo no mercado, porém as crises têm suas variações e individualidades, talvez muito mais do que períodos prósperos e o passado não pode ser considerado como regra para o futuro. Como ilustres investidores afirmam, o futuro sempre será incerto e imprevisível, apesar da certeza de momentos bons e ruins, o que se pode fazer, além de aguardar, é se preparar.



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