Evergrande: consequências para o Brasil e para o mundo


O mês de setembro foi marcado por grande volatilidade nos mercados de capitais, principalmente os emergentes. O MSCI Brazil Index caiu 12.3%, em movimento conjunto com outros índices.

Esse fato se deu, entre outros motivos, por turbulências no mercado imobiliário chinês, criadas pela possibilidade de falência do Evergrande Group. Em meados de setembro, a segunda maior incorporadora da China, com passivos em mais de US$ 304 bilhões, deu sinais de que não conseguiria cumprir suas obrigações com credores, fornecedores e clientes. Isso poderia ser o estopim para uma crise aos moldes de 2008, que, agora, começaria no mercado imobiliário chinês, se espalhando para o sistema financeiro. E foi essa possibilidade de calote que elevou o prêmio de risco requerido pelos investidores, derrubando as cotações de ações e bonds.


Contudo, só é possível discutir como esse cenário catastrófico aconteceria, após analisar a importância da construção civil para a economia chinesa e o papel do Estado chinês no setor. Primeiramente, a construção civil como um todo, isto é, considerando toda a cadeia de produção, corresponde a 29% do PIB chinês, segundo Rogoff e Yang (2020). Desde as reformas liberalizantes na década de 90, que possibilitaram a posse privada de imóveis aos cidadãos, o mercado imobiliário chinês vive um boom, indicado pelo investimento residencial anual:

Dessa forma, é natural que as empresas protagonistas tenham uma escala gigantesca e grande importância para a economia do país. Só a Evergrande seria responsável por mais de 3 milhões de empregos direta e indiretamente, segundo a própria empresa, tendo projetos em mais de 229 cidades. Um dos maiores indicadores do tamanho das operações da Evergrande é o fato dela ter sido considerada, em 2021, a 122ª empresa do ranking Fortune Global 500, com 73.5 bilhões de dólares de receita no ano passado.


O problema é que o modelo de negócio das incorporadoras é dependente de uma alta alavancagem, visto que elas necessitam bancar o custo imediato do projeto, mesmo que as receitas desses projetos aconteçam de forma parcelada. Muitas vezes a alavancagem tornou-se excessiva e, até, insustentável. Por isso, o governo anunciou em agosto de 2020 a criação do programa de controle "Three Red Lines", tentando melhorar a saúde financeira dessas empresas. Foram impostos limites de diversos indicadores: Passivo/Ativo até 70%, Caixa/Dívida de curto prazo no mínimo 100% e coeficiente de alavancagem líquida até 100%. Quanto menos linhas cruzadas, mais uma empresa pode aumentar seu montante de dívida. No entanto, as medidas chegaram tarde demais para a Evergrande e sua falência não parece estar tão distante no momento atual.


As consequências de uma falência não se limitariam apenas a demissões em massa e à diminuição do investimento em alguns setores da economia chinesa. A Evergrande tem inúmeros credores, inshore e offshore, bancos e pessoas físicas. Um calote generalizado causaria diversas consequências negativas que variam de acordo com o tipo de credor.


Um calote dos títulos retidos por pessoas físicas, por exemplo, causaria o desaparecimento das poupanças acumuladas durante décadas. Esse panorama assustador gerou os chocantes protestos na sede da Evergrande. Os investidores gritavam: "Evergrande, devolva o nosso dinheiro!". Episódios como esse podem afetar a confiança do consumidor, que se torna mais reticente com uma turbulência financeira à vista e com suas poupanças ameaçadas.


Foto dos protestos em 13 de setembro


Já um calote a investidores profissionais: fundos, bancos, firmas de wealth management também traria impactos ligados à confiança. Os investidores poderiam ficar receosos com o mercado imobiliário chinês, o que poderia causar problemas de insolvência para outras empresas em situação similar à Evergrande, levando a mais calotes e outras complicações. Diante destas possibilidades, todos os mercados emergentes seriam prejudicados, com fuga de capital de ativos com maior risco. É relevante salientar que os impactos não estariam apenas nos mercados de capitais.


O mercado de crédito, pilar central do sistema financeiro, se baseia, quase que exclusivamente, na confiança de que o investidor terá seu dinheiro de volta acrescido de juros. Se essa confiança nas empresas chinesas for abalada, o crédito é prejudicado e a economia real sofre: investimentos em capital fixo (usualmente feitos com crédito) encarecem, tornando-se potencialmente inviáveis.


Com a crise da economia chinesa, as economias dependentes dela seriam muito impactadas. Nesse sentido, o Brasil seria impactado tanto pela aversão ao risco dos investidores, o que atrapalharia a concessão de crédito aos agentes brasileiros e derrubaria os mercados de capitais, como também pela menor demanda por produtos nacionais. A China é, disparadamente, a maior parceira comercial do país hoje, responsável por 27.6% das exportações brasileiras em 2019, segundo o Observatório de Complexidade Econômica (OEC), com um valor exportado 2.1x maior que o segundo colocado: os EUA.


Sabe-se que o mercado imobiliário chinês é um dos principais polos de demanda por commodities, como o minério de ferro e aço. Ele é responsável por 30 a 35% do consumo total de aço chinês. Supondo a mesma porcentagem para o minério de ferro, somente o mercado imobiliário chinês seria responsável por 4.1 a 4.8 bilhões de dólares de minério exportado pelo Brasil em 2019 segundo o OEC, desconsiderando outros produtos.


Assim, dado esse panorama, Beijing deverá fazer uma escolha de Sofia. Se não há dinheiro suficiente para pagar todos, qual credor deve ser priorizado? Pessoas físicas, aumentando a confiança do consumidor, ou os investidores financeiros, e restaurar a confiança deles na economia chinesa? O governo deve pagar todos os credores (ou quase), resgatando a empresa, como fez os EUA em 2008? Qual mensagem isso passaria ao mundo e às empresas chinesas sobre o modelo chinês de desenvolvimento?

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