Como e por que dolarizar o patrimônio?



Com a queda da taxa de juros dos últimos anos e a necessidade de proteção patrimonial devido à inflação, a busca por exposição a investimentos no exterior através da dolarização tem se tornado tema frequente quando o assunto é investimento. De acordo com dados da Anbima, o número de cotistas brasileiros em fundos no exterior cresceu em mais de 140 mil entre dezembro de 2020 e abril de 2021.

De forma contraditória, enquanto o tema ganha destaque no mercado, ainda é muito desconhecido para grande parcela dos investidores pessoa física no país. Sendo assim, é preciso expor os pontos importantes da dolarização, seja para buscar retornos maiores seja para proteger o patrimônio. Mas por que a dolarização protege o patrimônio do investidor brasileiro? O que significa “dolarizar”e como fazê-lo?


Antes de entender as formas de dolarização, é imprescindível esclarecer as razões da sua importância. O Brasil é um país em desenvolvimento, com moeda fraca e constantes crises políticas, o que constitui um cenário desfavorável aos investimentos em território nacional.


Fora isso, o comércio internacional, bem como todos os ativos e patrimônios relevantes pelo mundo, são lastreados em dólar, e a inflação americana é historicamente muito menor que a brasileira.


Ainda vale a pena destacar que, em tempos de crise, o dólar e as ações brasileiras possuem uma forte relação inversa: geralmente os ativos brasileiros perdem valor, enquanto que o dólar se valoriza, o que pode promover um contrapeso na queda do patrimônio. Por outro lado, quando a economia brasileira está em períodos de ascensão, o real, na maioria dos casos, se valoriza e a parte dolarizada acompanha a economia americana.


Sintetizando: em meio a crises internas, o dólar é capaz de proteger seu patrimônio, enquanto que em tempos de crescimento da economia brasileira, os ativos brasileiros se valorizam e o dólar continua acompanhando a forte economia americana.


Título do gráfico: Variação do Dólar em relação ao real de 1996 a fevereiro de 2020.


Após evidenciar as motivações para a dolarização dos investimentos, surge o questionamento: como dolarizar? Para responder esta pergunta, deve-se indicar os principais meios e suas principais vantagens e desvantagens.


O primeiro modelo de dolarização são os fundos cambiais. Estes são expostos a moedas estrangeiras com o objetivo de seguir sua performance, tratando-se de fundos atrelados ao dólar. Seu mecanismo é simples: compram a moeda estadunidense ou derivativos lastreados nela. Dessa forma, seguem a tendência da moeda de forma fiel. Tal modalidade de investimento possui um ponto em específico que a diferencia das demais: ela segue a variação do Dólar e não a performance de uma empresa específica ou de algum índice. Além disso, são fundos de alta liquidez e de fácil acesso. Entretanto, é preciso conhecer suas desvantagens, que se resumem a taxas de administração e tributação, responsáveis por diminuir os rendimentos dos cotistas.


A dolarização não precisa ocorrer somente por meio de exposição à moeda ou derivativos lastreados. É possível, também, investir no mercado de ações estadunidense. Para tal objetivo, destacam-se dois principais meios: BDRs e ETFs.


Primeiramente, os “Brazilian Depositary Receipts” (BDRs) são títulos emitidos e negociados no Brasil com lastro em ativos emitidos fora do país, geralmente ações de empresas listadas em bolsas estrangeiras, como a NASDAQ nos Estados Unidos. Portanto, quem investe em BDRs não compra ações diretamente, mas títulos que representam ações. Esses títulos são emitidos por instituições depositárias, responsáveis por comprar ações fora do país e garantir que os BDRs sejam lastreados em seus respectivos títulos.


Existem dois tipos de BDRs: patrocinados e não-patrocinados. Os não patrocinados têm sua emissão de títulos sem a participação direta da empresa emissora das ações – é responsabilidade da instituição depositária os lançamentos dos certificados. Na bolsa brasileira, o código de BDRs não patrocinados sempre terminam com 34 ou 35, precedido de quatro letras maiúsculas.


Já os BDRs Patrocinados são assim chamados porque a empresa emissora das ações participa do lançamento dos títulos no Brasil, sendo necessária a contratação de uma instituição depositária para que ocorra a emissão. Isso ocorre quando a empresa tem interesse em participar do mercado brasileiro e se tornar uma opção para investidores do país.

Por outro lado, os ETFs (“Exchange Trade Funds”) são responsáveis por representar índices, constituídos por ativos diversificados, com o objetivo de entregar para o investidor uma “cesta de ações”. O ETF mais famoso no mercado brasileiro para a dolarização é o IVVB11, responsável por replicar o índice S&P 500.


Apesar de possuírem objetivos similares, essas duas modalidades de dolarização via mercado de ações possuem peculiaridades. Enquanto os BDRs são ativos que representam uma única empresa, como empresas globais interessantes para um portfólio, os ETFs são fundos que replicam índices sem risco idiossincrático, devido à grande diversificação.


Por exemplo, o IVVB11 replica o índice composto pelas 500 maiores empresas dos Estados Unidos, o que traz uma exposição muito diversificada, tendo assim menores riscos e um rendimento na média do mercado. Além disso, a gestão do IVVB11 reinveste diretamente os dividendos, o que poupa esta tarefa ao investidor e contribui para a “bola de neve” dos juros compostos.


Todavia, também é necessário analisar os diferentes riscos que cada modalidade possui. Os BDRs possuem baixa liquidez no mercado de ações brasileiro, o que pode ser um grande empecilho na visão de muitos investidores, enquanto os ETFs possuem alta liquidez. No entanto, esses são “cestas de ativos”, o que diminui o potencial de retorno quando comparado a algum BDR de uma empresa específica, como o da Tesla (TSLA34) que teve um retorno acima da média no ano de 2020. Por fim, ambos convergem para uma desvantagem relevante: são ativos que, mesmo expostos ao mercado americano e ao Dólar, dependem do território nacional.


Em meio a tal cenário, surge um interesse cada vez maior por parte dos investidores brasileiros na exposição direta ao mercado de capitais estadunidense. Nesta modalidade, o leque de opções é enorme, desde REITs (similares aos fundos imobiliários brasileiros), até stocks (ações) e bonds (títulos de dívida). As vantagens são claras: exposição real à economia americana; patrimônio totalmente protegido de políticas econômicas brasileiras; maior leque de opções. Entretanto, é importante ressaltar novamente as desvantagens: tributação do lucro direto da fonte; tributação alta de dividendos; incidência de até 40% do imposto sobre herança no caso de falecimento do investidor; maior complexidade e burocracia quando comparado com as opções nacionais de dolarização.


Pode-se, portanto, concluir que a dolarização é de extrema relevância, além de ser uma tarefa que está ao alcance de todos os investidores brasileiros de forma barata e simplificada nos dias de hoje. Assim, fica claro o porquê deste tema ter ganho tanta relevância nos últimos anos. Por fim, é importante entender que dolarizar parte do patrimônio é diferente de “trade” cambial, já que o objetivo é a exposição à moeda forte ao invés de ganhar nas diferenças cambiais de curto prazo.







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