As eleições presidenciais nos EUA

25/09/2019

 

 

     No dia 3 de novembro de 2020, haverá a votação para o novo presidente da maior potência econômica mundial. Em outras palavras, 426 dias frente ao momento em que esse artigo é escrito, a população estadunidense irá às urnas definir o responsável por liderar a política na Casa Branca. Se porventura parece muito distante o famigerado dia, o fato é que a campanha eleitoral já começou e, em conjunto, as análises relativas aos resultados conjecturados. 

     Em relação ao Partido Democrata, os primeiros debates dos aspirantes à candidatura ocorreram já nos dias 26 e 27 de junho, quando vinte, dos 22 candidatos, tiveram a oportunidade de debater em rede nacional por pouco mais de 1 hora.  Atualmente, destaca-se na liderança dessa disputa o Vice-Presidente do mandato de Obama: Joe Biden. No entanto, ainda é cedo para qualquer previsão confiável no que se refere ao próximo candidato democrata, já que outros políticos ainda podem ganhar força até o momento de oficialização.

     No cenário Republicano, por outro lado, é difícil para qualquer um tirar a vaga de Donald Trump: Com 88% de aprovação do seu partido, tudo indica que o atual presidente será o próximo candidato a representar os republicanos. Mais do que isso, seria pouco inteligente qualquer alteração nesse cenário, dado que hoje, contraintuitivamente, Trump é o favorito à reeleição. Sim! As principais previsões, nesse momento, indicam a vitória de Trump para a eleição de 2020. No recente artigo do The New York Times: “Trump’s going to win. Isn’t he?”, Thomas Friedman salienta a maneira como o atual direcionamento da política estadunidense promoveria a vitória do republicano. 

     Até o momento, seu governo foi marcado por duras críticas, disfunções dentro do alto escalão da Casa Branca e promessas de campanha não cumpridas. Em meio ao seu desejo de grandiosidade, podemos dizer que Trump é um verdadeiro recordista na era moderna: foi o presidente que teve o maior número de demissões de conselheiros, a paralisação do Congresso mais duradoura (35 dias) e, junto com Reagan, uma das taxas de aprovação mais baixas da história (37%). Dessa forma, estranho seria considerar sua reeleição e, mais estranho ainda, vê-lo como favorito na corrida presidencial. Porém, é essa a visão predominante até agora. Vejamos o porquê: 

Ray Fair é professor de economia em Yale e, em seus estudos, desenvolveu metodologias de previsão de resultado a partir das quais pôde identificar os fatores de maior influência no resultado final das eleições. Assim, na corrida para presidência estadunidense haveria 4 condições principais. 

     A primeira delas relaciona-se ao fato que o candidato está concorrendo a uma reeleição: isso traria um peso positivo para Trump, tendo em vista a inclinação da população a votar pela permanência de um atual presidente, com quem já possui maior familiaridade.

     O segundo ponto consiste na alternância de poderes (pois há uma propensão à troca de partidos com certa periodicidade), fator pouco aplicável a 2020, uma vez que os Republicanos ocupam a Casa Branca há menos de quatro anos — período pouco significativo. 

     Em terceiro lugar, há certo viés favorecendo os republicanos nas eleições presidenciais, indicando uma base maior de votantes desse partido. Historicamente, o Partido Republicano teve representantes no cargo máximo da Casa Branca 19 vezes, enquanto o Partido Democrata, apenas 13. 

     E por fim, as condições econômicas no momento da eleição são outro fator definitivo, pois o cenário econômico tende a favorecer ou desfavorecer o status quo do poder. Nesse sentido, a economia estadunidense traz consigo um cenário com sólida perspectiva de crescimento para os próximos anos e apresenta, atualmente, a menor taxa de desemprego desde 1969. Seria pouco provável algum revés significativo na economia até o final do próximo ano, o que favorece fortemente Donald Trump.

    Assim, apesar de uma situação política relativamente instável, existem bases sólidas sobre as quais a campanha de Trump deve se apoiar, destacando-se a situação econômica do país. Como o presidente sabe disso, deixou-o bastante explícito em seu discurso de reeleição no dia 18 de junho: ao que tudo indica, deve dar seguimento a sua campanha de maneira similar àquela que o trouxe ao posto pela primeira vez, mas agora, apresentando a solidez da economia como mérito de seu governo. 

    

     Perspectivas em perspectiva

     Discutido o cenário convencional, as particularidades em uma eventual reviravolta também merecem espaço. Por mais sólida e consistente a busca por precisão nas análises, é pouca a certeza que se tem diante da subjetividade no processo decisório do voto, pois daqui a um ano, diversas idiossincrasias poderiam mudar os rumos da eleição.

     Fato curioso é a imprevisibilidade da última eleição, em que pesquisas semelhantes falharam ao tentar antecipar o resultado de 2016: Trump era tido como um nome de baixa representatividade no partido Republicano, com poucas chances mesmo nas prévias do seu partido. Em uma reportagem da CNN, pouco mais de um ano antes da votação oficial, 1% era sua chance de vitória, segundo os analistas entrevistados pelo jornal. 

     Outra plataforma que fracassou na sua conjectura foi a PollyVote. Sendo a primeira vez, desde a criação da instituição em 2004, que o resultado antecipado não se concretizou. Fica marcada a machete: “Final PollyVote forecast: Clinton will win.”

     Tudo indica que o movimento da corrida eleitoral é cada vez mais fugaz, imprevisível e subjetivo, não apenas pela maior força das mídias sociais e rapidez dos meios de comunicação, mas também, como colocado adiante, pelo sentimento de negação da política como forma de posicionamento, fenômeno que tem se estabelecido nos EUA. 

Em “Why U.S. elections are all about voting against something” de Amber Phillips, jornalista do The Washington Post, a autora destaca o partidarismo negativo, que é uma forma de posicionamento contra um projeto para tomada de decisão do voto. Escrito em 2015, o artigo é ainda atual uma vez que o conceito de partidarismo negativo encontra sonoridade ainda nas publicações mais recentes. 

     Segundo a autora, a população dos Estados Unidos traz certa relutância a identificar-se com determinado partido. Ao invés da identificação, a motivação da escolha ocorre por meio da recusa de outra proposta. Isso muda totalmente a dinâmica da eleição. Há uma hostilidade maior, ânimos extremados e menos lógica na corrida eleitoral.

A própria ascensão de Trump teria explicação nesse sentimento. Afinal, a negação de Hillary e dos democratas seria uma forma de aceitação de seus discursos relativamente agressivos. Como um outlier da política, Trump pôde alavancar-se sobre tal anti-partidarismo, exercendo sua campanha com um direcionamento pouco convencional e bastante nacionalista. Assim, as previsões de 2016 tiveram pouca compatibilidade com a realidade apresentada nas urnas.

     Passado esse evento, o contexto relativo às eleições de 2020 é outro: Trump já não é tão outlier e espera-se dos democratas uma campanha mais propositiva e reativa diante dos descontentamentos da população. O partidarismo negativo e a dinamicidade da eleição seriam fatores ainda mais ampliados para a próxima eleição de 2020, de modo a tornar os seus resultados mais sensíveis a acontecimentos próximos da data de votação. Fato é que pesquisas mais complexas são necessárias para resultados menos acurados: nos resta a tentação de se arriscar na projeção de cenários pouco prováveis ou aguardar 2020 na contagem das urnas com o resultado final. Fica a dúvida de quais serão os eventos políticos desse ponto em diante e como cada um deverá  afetar na resposta da população. 

 

   

 

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