Sustentada por uma bolha: a resposta chinesa à crise de 2008

02/09/2020

          Era 2008, e a ocorrência de uma olimpíada permitia a uma nação demonstrar ao restante do mundo o tamanho de seu poder e distanciar-se, enfim, de seu passado repressivo: o Massacre da Praça da Paz Celestial. Este evento foi fruto do descuido da elite política chinesa, a qual permitiu que a população do país confundisse as iniciativas de abertura econômica com a possibilidade de conquista de direitos individuais básicos. No entanto, a memória desse incidente foi silenciosamente removida da sociedade chinesa, e se a pretensão do partido se concretizasse, seria também removida da lembrança do restante do mundo. Mesmo em meio a uma crise financeira, cujos precedentes comparáveis só eram encontrados na iniciada em 1929 e que arrastava o ocidente em uma crítica recessão, a China de 2008 foi capaz de realizar esse evento esportivo que dificilmente acontece duas vezes na história de um país. É claro que existiram altos custos para o rígido sistema político da China: permitiu-se até mesmo, para o desespero de muitos políticos mais ortodoxos, a ocorrência manifestações de oposição. Obviamente, elas necessitavam de autorização governamental e somente poderiam ser realizadas em locais especificamente determinados para elas. Mas isso não era importante pois, afinal, quem iria querer protestar contrariamente nesse país capaz de realizar não somente uma das maiores olimpíadas da história, mas também contar com um crescimento de mais de 9% em seu PIB nesse período de recessão global?

 

             Para responder essa questão, deve-se entender como ela conseguiu alcançar tais conquistas e o preço pago para mantê-las, com a maior parte da explicação encontrando-se apenas no setor imobiliário. Esse setor da economia chinesa, motivado por volumosos pacotes de ajuda, foi capaz de prosperar na crise, em contraste com a recessão que se ampliava nos demais setores. Assim, diferentemente do restante do mundo que mergulhava em uma depressão originada no mercado imobiliário e contrariando mais uma vez tendências internacionais, o estímulo fiscal do banco central chinês de ¥ 4 trilhões, o equivalente na época a US$ 576 bilhões, foi em grande parte direcionado a investimentos nesse mercado, que por já há algum tempo representava um importante alicerce da economia chinesa, e que se consolidou ainda mais nos anos que se seguiram à crise.

 

          Esse crescimento do setor imobiliário remonta a diversas questões estruturais da economia e da política chinesa. A primeira delas refere-se ao elevado grau de investimento na relação com seu PIB: enquanto a União Europeia e os Estados Unidos possuíam respectivamente 23% e 20,5% do seu PIB atrelado a investimentos em 2019, a China possuía surpreendentes 43,1%, já demonstrando características peculiares de sua economia.

 

         Contudo, a segunda característica, que envolve a política fiscal chinesa, é a que melhor explica a situação. Dado que os governos locais chineses retêm apenas 40% dos impostos, mas devem arcar com 80% do seu orçamento, e ainda não possuem permissão de tomar dívidas próprias, eles devem buscar fontes alternativas de captação de recursos. Provavelmente a mais rentável delas é a venda de terrenos, os quais foram adquiridos com a expropriação das fazendas coletivas de um cada vez mais esquecido passado comunista  por um valor que pode exceder em até 40 vezes o valor da indenização. Essa venda será realizada entre os governos locais e empresas estatais, pertencentes a esses mesmos governos locais, mas que curiosamente possuem a permissão para tomar dívida. Seguindo o processo, as empresas estatais locais utilizam o terreno para construírem empreendimentos imobiliários do tamanho de cidades que poderão ser comprados por aqueles que têm se dirigido às cidades no processo de Êxodo Rural, condicionado pelos cada vez mais altos índices de urbanização chinesa.

 

           Assim, cria-se, ao menos na teoria, um projeto satisfatório a todas as partes: os governos locais conseguem por procedimentos legais arcar com suas despesas, a crescente população urbana tem sua demanda atendida , cada vez mais localidades chinesas alcançam o desenvolvimento econômico, os grandes investimentos chineses não se provam  ociosos  e, por fim, sustentam-se as altas taxas de crescimento econômico. De fato, seguindo esse método, 600 cidades foram construídas desde a Revolução de 1949 e mais concreto foi utilizado nos últimos três anos no país do que em todo século XX nos Estados Unidos. O único problema desse plano é que desde o final da década de 2000, o ritmo de construção de cidades da China já superou a quantidade de chineses que têm migrado às cidades, criando uma espécie de projeto insustentável a longo prazo e repetindo o fenômeno já conhecido das chamadas “cidades fantasmas”, com a fundamental diferença de que estas nunca foram, e talvez jamais serão, habitadas.

 

            Ao invés de se empenhar em reduzir esse projeto especulativo, o governo chinês tem dado continuidade a ele, com o presidente chinês Xi Jinping se empenhando em promover a expansão e a transformação de Xiong’na, cidade da província de Hebei, em um projeto que analistas preveem um gasto de até US$ 580 bilhões. Isso faz parte do que o autor sérvio Branko Milanovic, em seu livro Capitalismo sem Rivais – O Futuro do Sistema que Domina o Mundo, define como parte do “capitalismo político”, sistema típico de regimes autoritários, os quais devem sempre utilizar de táticas de autopromoção para justificar a ausência de uma democracia institucional e de um Estado de direito. Dessa maneira, priorizando o crescimento econômico, o Partido Comunista Chinês acaba por legitimar seu próprio controle da política do país.

 

              No entanto, a pandemia de COVID-19, como era de se esperar, alterou esse cenário. O crescimento da China no período anterior à crise já vinha se reduzindo, com as altas taxas de crescimento de 14,3% em 2007 diminuindo para uma de 6,1% em 2019. Ademais, o Banco Mundial já apontava que se a China não instituísse profundas reformas em sua economia, seu crescimento se reduziria para apenas 1,7% em 2030. Em contraste a essa desaceleração econômica, o esforço depreendido para sustentar esse crescimento aumentava: em 2008, auge da crise financeira, o endividamento total da China representava 147% do PIB, e em 2019 passou a contabilizar mais de 300%. Nesse sentido, a pandemia comportou-se apenas como um catalisador de um processo de defasagem desse projeto de desenvolvimento, o que é evidenciado pelas previsões do FMI as quais apontam que o PIB chinês crescerá no reduzido patamar de cerca de 1% neste ano, a pior taxa em décadas.

            

          Ademais, dessa vez a China não contará com as olimpíadas para melhorar os danos sofridos em sua imagem, sendo cada vez mais apontada por líderes internacionais como o país responsável por permitir o alastramento da pandemia. Além disso, seu sucesso em conter a doença internamente não disfarçará os seus esforços reprimindo cientistas para que o vírus não fosse descoberto e pudesse ser tratado inicialmente com a importância que merecia. Culpada ou não por esta nova crise econômica sistêmica, o fato é que a eficácia do “capitalismo político” pode ser compreendida por uma citação de George Orwell:  “a humanidade deve optar entre a liberdade e a felicidade e, para a esmagadora maioria da população, a felicidade é melhor”. Se a felicidade da população chinesa puder ser entendida como a manutenção do crescimento da qualidade de vida sustentada por um desenvolvimento econômico artificial, dessa vez não é para sua negativa imagem internacional que os burocratas chineses devem voltar sua atenção.

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