Bipolarização Mundial: Tendência ou Realidade?

A República Popular da China e os Estados Unidos da América se desalinham em meio a uma conjuntura com plano de fundo caótico. Todos os conflitos observados entre os países durante a Guerra Comercial possuem diversas vertentes e trazem consigo diferentes raízes explicativas. Esses aspectos se mostram cruciais na eleição americana deste ano, a qual pode ser decisiva na relação política e econômica entre as duas potências. Nesse artigo, essas questões serão destrinchadas com o objetivo de melhor compreender as manifestações de tal embate, bem como suas consequências.

 

As relações entre EUA e China delinearam-se desde o início com um caráter conflituoso, intensificado a partir da Guerra Fria pelas diferenças ideológicas entre ambos, as quais geraram um período de 17 anos (1955 a 1972) sem qualquer encontro formal entre os líderes dos países. O primeiro acordo diplomático oficial foi firmado apenas em 1979 entre Deng Xiaoping e Jimmy Carter, o qual tratou de normalizar as relações entre as nações.

 

Desde então, a relação econômica entre as duas nações cresceu exponencialmente, a partir de um marco histórico relevante em 2001, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC). Apesar da crescente relação comercial, as relações diplomáticas caminharam em passada diferente.

 

As consequências do longo isolamento diplomático, as divergências ideológicas crescentes e o rápido crescimento, tanto em termos econômicos quanto políticos, do país oriental fomentaram uma série de focos de embate, entre eles destacam-se os movimentos separatistas chineses, a posse de treasuries norte-americanos pelos chineses e inúmeras outras questões fiscais e comerciais.

 

No âmbito dos conflitos oriundos dos movimentos separatistas chineses, destaca-se o caso de Hong Kong, no qual atual governo dos EUA demonstra explícito apoio aos movimentos separatistas no centro financeiro.

 

Mais recentemente, a tensão se intensificou com a aprovação da Lei de Segurança Nacional, a qual prevê a extradição de manifestantes e presos políticos para os centros de detenção chineses, além de ampliar significativamente o controle chinês sobre a região. Como resposta, Trump não só rompeu laços comerciais preferenciais com Hong Kong, como também defendeu a proibição da entrada de cidadãos chineses que representam “risco potencial” em solo norte-americano.

 

O governo chinês não mediu descontentamento ao responder que “qualquer declaração ou ação que prejudique os interesses da China encontrará um firme contra-ataque”, nas palavras de Zhao Lijian, porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores.  

 

            Além do conflito separatista, a questão da posse de treasuries americanos pelos chineses é amplamente debatida. Elas suscitam questões sobre a dependência estrutural norte-americana do ponto de vista das contas nacionais, já que a China é a maior credora do país, com US$ 1.11 trilhões em treasuries.

 

Posse de treasuries

 

Fonte: Elaborado pelos autores

 

Atualmente, tal preocupação é justificável, pois uma inundação de oferta de treasuries e a não participação da principal detentora de títulos do governo dos EUA no mercado poderia ocasionar graves consequências, como a derrocada nos níveis de confiança nos bonds e o aumento massivo das taxas de juros.

 

Contudo, especialistas como Michael Pettis, professor de finanças na Peking University’s Guanghua School of Management, acreditam que a venda massiva dos treasuries americanos por parte da China a prejudicaria de maneira mais intensa, através de consequências indiretas como a redução das exportações para os EUA, consequente déficit comercial, aumento de desemprego e aumento da dívida do país.

 

            Outro ponto central da discussão faz referência ao setor estratégico de telecomunicação. Toda desconfiança do governo Trump sobre empresas chinesas de tecnologia se iniciou com a prisão da CFO da Huawei Meng Wanzhou, acusada de fraude pela manutenção de negociações com o Irã (país que sofre sanções comerciais por parte dos EUA) através de uma empresa de fachada, ligada à Huawei.

 

            Ainda no início de 2018, os principais chefes das agências de segurança nacional dos EUA, incluindo a CIA e o FBI, indicaram a possibilidade da Huawei promover táticas de espionagem em solo americano, dada a relação próxima entre a empresa e o governo chinês.

 

            A partir disso, o governo americano instituiu medidas no sentido de coibir as vendas de semicondutores, chips e outros dispositivos pela Intel (INTC), a Qualcomm (QCOM) e a Advanced Micro Devices (AMD) para a Huawei. No dia 15 de maio de 2020, foram adotadas mais medidas no sentido de dificultar as operações da empresa chinesa, como o bloqueio de companhias ao redor do mundo de usarem equipamentos e softwares americanos para produção de chips para Huawei e suas afiliadas.

 

            Assim como a Huawei, a gigante chinesa de telecomunicações ZTE também foi acusada de envolvimento direto em negociações com o Irã. Diferentemente da sua compatriota, a ZTE se declarou culpada e pagou um total de US$ 2,38 bi em multas e reparações ao governo americano.

 

            Apesar das medidas adotadas pelo governo americano, no curto prazo, prejudicarem principalmente as empresas chinesas, visto que os principais produtos tarifados são equipamentos de telecomunicações (US$ 19,1 bi taxados somente até o primeiro semestre de 2019), elas possuem um considerável efeito negativo nas empresas americanas. A Qualcomm e a AMD, por exemplo, já divulgaram resultados abaixo do esperado, em 2019, justificados pela impossibilidade de abastecer seus compradores chineses.

 

Além da influência direta em determinadas corporações, os conflitos entre os países geraram, em um passado recente, uma série de restrições econômicas e tarifárias que preocupam, de maneira relevante, todo o mercado mundial, pois os danos colaterais causados pelas movimentações fiscais das maiores economias do mundo são de alta proporção. Os maus desempenhos dos principais índices de mercado financeiro das duas nações entre 2018 e 2019, com destaque negativo para China, demonstram as proporções do temor proporcionado pelo conflito.

 

Comportamento dos Índices

 

Fonte: Elaborado pelos autores

 

Com o discurso de campanha “Make America Great Again”, o presidente Donald Trump embarcou em uma verdadeira cruzada protecionista desde sua eleição. Um dos principais  tópicos de seu programa de governo era a revisão das relações entre os EUA e a China, as quais, na visão do líder, eram depreciativas. Tal visão é justificável através de uma análise das proporções do déficit comercial gerado nas transações com a China. De acordo com os dados oficiais dos EUA, estima-se um rombo de US$ 419 bi em 2018.

 

Evolução do Déficit Comercial americano em relação à China

Fonte: BBC internacional

 

 

Com o intuito de reduzir o déficit, Trump promoveu uma série de aumentos de taxações sobre produtos chineses. A tentativa de negociação de um novo acordo comercial foi frustrada em diversas ocasiões, o que gerou uma série de medidas fiscais, como forma de aumento da pressão pelo fechamento do acordo.

            O primeiro dos aumentos das tarifas aconteceu no dia 22 de janeiro de 2018, quando os produtos alvos foram as máquinas de lavar e os painéis solares. Mais adiante, Trump definiu uma sobretaxa de 25% sobre todas as importações de aço e de 10% sobre o alumínio. Tal medida afetou de maneira significativa o Brasil, o qual tem nos EUA seu principal comprador de aço.

Essas taxações se repetiram incessamente por volta de 2 anos, com os movimentos de maior escala sendo o aumento da taxação em 5 p.p. sobre US$ 500 bi em produtos chineses importados, em setembro de 2018, por parte dos EUA e o movimento de desvalorização cambial massiva do yuan por parte do governo chinês com o intuito de favorecimento das exportações. É importante pontuar que tal tática monetária chinesa rendeu a classificação de“manipuladora cambial” durante grande parte do conflito pelas agências norte americanas, o que ocasionou problemas de confiança do mercado  financeiro.

 

Após uma série de ataques incessantes de sobretaxas, os países chegaram a uma trégua após reunião da cúpula do G-20, contudo a estabilidade não durou sequer dois dias. Um novo acordo oficial seria celebrado somente em janeiro de 2020, com comemoração pelas duas partes. Trump defende a tese de que a “Fase 1” do acordo comercial foi o melhor e maior da história, enquanto Xi Jinping argumenta que a China se manteve firme em seu propósito e preservou seus interesses com sucesso.

 

A “Fase 1” do acordo comercial prevê cerca de US$ 200 bi em compras adicionais por parte da China de produtos e serviços americanos nos próximos dois anos. A divisão dessa expansão da demanda deve ser dada da seguinte forma: 75 bi em manufaturados, 40 a 50 bi em serviços (essencialmente financeiros) e em produtos agrícolas, além de cerca de 50 bi em suprimentos de energia.

 

            As tensões entre as nações voltaram a aumentar devido ao coronavírus, várias vezes definido por Trump como o “vírus chinês”. Mais recentemente, ao deixar a Organização Mundial da Saúde (OMS), os EUA justificaram a decisão com base no argumento de que a OMS atuou de maneira complacente aos interesses chineses na atual crise pandêmica. Donald Trump demanda a responsabilização da China pela pandemia, pois acusa o país asiático de manipulação de dados, divulgação falha de informações e frouxidão no controle inicial do vírus.

 

A pandemia do Covid-19, as novas críticas à Lei de Segurança Nacional, a militarização do Mar da China Meridional e o novo bloqueios à cadeia de oferta da Huawei, são todos fatores que levaram o ministro de relações exteriores Wang Yi e o presidente Donald Trump afirmarem, respectivamente, em discursos recentes, que “as relações diplomáticas entre Estados Unidos e China vivem o pior momento desde 1979” e “a Fase 2 do acordo comercial é improvável, já que as relações com a China estão severamente danificadas”.

 

Contudo, a situação conflituosa não reverberou apenas em discursos. No dia 21 de julho, o governo dos Estados Unidos determinou o fechamento do consulado chinês em Houston com base em acusações de espionagem, fortalecidas, pela mídia, após cenas de queima de documentos por parte de oficiais chineses. Como resposta, três dias depois, o governo chinês ordenou o encerramento das atividades diplomáticas do relevante consulado de Chengdu, responsável pela representação estadunidense na cidade de Chongqing (mais de 30 milhões de habitantes) e pelo acompanhamento do conflito separatista no Tibet.

 

De fato, existem muitas incertezas em relação às relações econômicas e diplomáticas entre ambos os países, visto que eles estão presentes em diversas frentes comerciais e geopolíticas e representam políticas, ideologias e valores divergentes. Enquanto os déficits comerciais da democracia liberal norte americana se amenizam, ainda com um caráter crescente, o regime autoritário chinês avança econômica e geopoliticamente, ameaçando o paradigma ocidental do progresso ser condicionado à liberdade e à democracia.

 

 

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