Os impactos do coronavírus no e-commerce brasileiro

22/07/2020

 A crise do coronavírus afetou gravemente a economia global, fazendo com que diversas bolsas despencassem, empresas falissem e colocou diversos setores em uma situação crítica. Além disso, a crise foi tão profunda que casou mudanças na forma como as pessoas consomem. O comércio físico foi interditado, temporariamente, nos grandes centros urbanos, o que levou a importância do e-commerce a crescer imensamente.

 

A tendência de inserção da Internet e da tecnologia em geral em nossas vidas não vem de hoje. Durante o período de 2011 a 2018, as vendas através do e-commerce no Brasil saíram de 18,7 para 53,2 bilhões, essa evolução representou um CAGR de 16,1%.

Contudo, ao longo do mês de abril, o e-commerce apresentou uma evolução de 81% em relação a abril de 2019. Segundo a ABComm (Associação Brasileira de comércio eletrônico), alguns produtos que apresentaram um grande aumento no volume de vendas foram artigos esportivos (+211,95%), brinquedos/jogos (+434,70%) e supermercado (+270,16%). As razões para esses aumentos tão surpreendentes foram, respectivamente, a necessidade de se exercitar sem sair de casa, necessidade de distração para crianças e de realizar compras evitando ao máximo sair de casa.

 

Mesmo durante o primeiro trimestre, que foi menos afetado pelo fechamento de lojas, a pandemia estimulou o e-commerce. As grandes varejistas de comércio eletrônico brasileiro, Magazine Luiza, B2W e Via Varejo, apresentaram no 1T20 um aumento nas vendas online de, respectivamente, 72,6%; 35% e 52%.

 

Já em abril, a Via Varejo revelou ter apresentado um aumento de 260% em vendas online de produtos próprios. As outras companhias ainda não divulgaram seus respectivos aumentos no mês de abril.

 

Já é evidente que o coronavírus impulsionou o mercado de e-commerce, porém, o que faz essas mudanças serem estruturais e não apenas momentâneas?

Podemos pontuar dois vetores de mudanças estruturais que devem acelerar a penetração do e-commerce no varejo brasileiro. (1) Aumento no acesso à Internet, (2) mudança de hábito de consumo.

 

Aumento no acesso à Internet

 

Com boa parte da população confinada, a explosão no consumo de dados de Internet está jogando os holofotes sobre um problema antigo do Brasil: um grande déficit na infraestrutura de telecomunicações do país. Mesmo em São Paulo, a situação é complicada, a cidade tem mais de 2 mil usuários por antena, sendo que o número ideal para a rede funcionar bem seria de 1,5 mil usuários por antena, segundo recomendação da União Internacional da Telecomunicação. Em zonas periféricas da cidade a situação é ainda mais crítica, com uma proporção de até 6 mil usuários por antena.

 

Durante as últimas semanas, a demanda por Internet chegou a aumentar 40% em algumas localizações, fazendo com que a Anatel recomendasse a expansão da capacidade de provisão de dados por parte das empresas de telecomunicações. Dessa forma, a crise do coronavírus acabou gerando uma pressão para a expansão de infraestrutura do setor.

 

Este é um vetor relevante para o e-commerce brasileiro porque, com maior acesso à Internet, mais pessoas acabam consumindo online. Segundo o Brazil Digital Report da Mckinsey & Co, a proporção da população brasileira com acesso à Internet mais do que dobrou de 2008 a 2018, saindo de 34% e chegando aos 71%.  Porém, ainda existe espaço de crescimento quando comparado a países mais desenvolvidos, nos quais chega a passar de 90% da população. O gráfico abaixo retrata o posicionamento do Brasil comparado a diversos outros países neste quesito.

Da mesma forma, a penetração do e-commerce no Brasil fica para trás dos países mais desenvolvidos, representando apenas 6% das vendas totais do varejo, enquanto países mais desenvolvidos chegam a passar dos 12%.

 

O aumento da penetração de Internet no Brasil devido a pressões criadas pelo coronavírus representam uma clara mudança estrutural, já que a situação não voltará ao antigo patamar após a crise. Com isso, é esperado que o avanço do acesso à Internet seja acompanhado por um avanço no comércio eletrônico.

 

Mudança de hábito de consumo

 

Mesmo antes da pandemia o comércio eletrônico gerava um grande impacto no consumo brasileiro, não apenas pelas compras realizadas online, mas também, aquelas que se realizavam em ambiente físico, mas era influenciadas pelo ambiente digital. 

 

Segundo estudo divulgado em um relatório do BCG (Boston Consulting Group) a respeito do consumo digital em mercados emergentes, é muito comum que consumidores pesquisem por produtos online, mas apenas realizem a compra presencialmente. O estudo mostrou que parcela dos compradores que são influenciados pelo e-commerce, mas que continuam preferindo a compra física representa mais que os dobro dos que realmente compram online. No gráfico abaixo podemos ver a relação entre os dois tipos de consumidores, o total de compras realizadas em países emergentes nos últimos anos e o que se projeta para o futuro.

 

 

A razão para o fato de muitos optarem por não aderir ao e-commerce se dá, em grande parte, pela falta de confiança dos consumidores em países não desenvolvidos. Com isso, muitas pessoas utilizam plataformas de Market Place para pesquisar sobre produtos, mas ainda possuem receio de realizar a compra e o produto não chegar, ou do produto real não ser o esperado. O gráfico abaixo retrata a diferença entre o ICC (Índice de Confiança do Consumidor) brasileiro e o norte americano.

 

Contudo, com a pandemia do coronavírus, muitas pessoas que possuíam medo de realizarem compras online, se viram obrigadas a superarem esse medo devido a impossibilidade de comprarem presencialmente. Dessa forma, uma vez que o consumidor experimenta o comércio digital, ele aumenta sua confiança no serviço e, além disso, percebe sua comodidade (que é um dos principais estimuladores do comércio digital em países desenvolvidos, segundo o BCG), duas coisas que fazem com que o indivíduo tenda a manter e até ampliar o hábito de comprar online no pós-pandemia.

 

Sendo assim, pode-se dizer que o coronavírus impulsionou o e-commerce brasileiro por pressionar uma ampliação na infraestrutura da rede de telecomunicações brasileira, assim como estimulou um aumento na migração do consumidor que apenas usa a Internet para procurar produtos para aquele que de fato a usa para consumir.

 

 

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