Limite da Política Monetária

08/07/2020

 

O Brasil está vivendo um ciclo inédito de baixa da Selic, que está hoje em sua mínima histórica. O país que é historicamente marcado por taxas de juros elevadas quando comparado a outras economias mundiais, tem experimentado em seu novo governo uma política monetária claramente expansionista, com objetivo de estimular o consumo e  impulsionar o crescimento econômico.  Juros baixos e dólar alto são o novo normal segundo o atual Ministro da Economia. No início do ano de 2020, com espaço para cortes na taxa de juros e a recente aprovação da reforma  da previdência, que aliviou as contas públicas, o sentimento era de otimismo e os cortes acompanhavam um iminente crescimento econômico. 

 

Quando a inesperada crise provocada pelo COVID-19 entrou em cena o cenário mudou completamente, à medida que a crise se espalhou pelo mundo adquirindo caráter pandêmico, o choque tanto na oferta quanto na demanda provocou uma rápida desaceleração. No Brasil, além da pandemia, a economia  foi impactada também pela crise do petróleo e instabilidade política. Neste contexto, a deterioração das contas públicas e a mínima histórica da Selic levantam dúvidas sobre a capacidade do Banco Central de estimular a economia via redução da taxa de juros. Estímulos adicionais eficientes dependem de diversos fatores, dentre eles, a condição fiscal do país, aceitabilidade da moeda local como reserva de valor, condições externas e estabilidade institucional. 

 

Como a política monetária expansionista funciona? Com objetivo principal de aquecer a economia, um corte na taxa Selic –principal instrumento de política monetária do Bacen- em seu efeito clássico e esperado pelas autoridades monetárias, tende a aumentar os preços que podem ser medidos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, um dos índices  de inflação) e o PIB, que é a soma de todos os bens e serviços produzidos. Um sinal claro de política monetária inoperante é a ausência de efeito da redução do juros sobre essas variáveis. Para explicar o motivo da ineficiência da política monetária, primeiro é necessário definir como mudanças na taxa Selic afetam o comportamento do IPCA e do PIB. O mais conhecido meio de transmissão da política monetária é o canal do Investimento e consumo, uma redução da Selic reduz os juros reais de remuneração da poupança e de captação de empréstimos, com isso, há um incentivo ao consumo por parte das famílias e ao investimento por parte das empresas. Esse aumento agregado na demanda por bens e serviços da economia contribui para o aumento do IPCA e do PIB. Além do investimento e consumo, o canal de crédito, câmbio, expectativas e riqueza também são meios de transmissão da política monetária. 

 

Analisando a situação econômica brasileira, como dito anteriormente, os cortes na taxa Selic estavam, até o início da pandemia resultando em um iminente crescimento econômico, no entanto, com o agravamento da crise, estímulos via redução dos juros estão tendo impacto desequilibrado sobre os canais de transmissão da política monetária, refletindo em reduzida eficiência de tal estímulo. Mais especificamente é importante destacar que o canal de transmissão do câmbio está mais sensível enquanto investimento e consumo, crédito, expectativas e efeito riqueza respondem pouco à política monetária e, consequentemente, IPCA e PIB são pouco beneficiados. De forma mais clara, podemos verificar a sensibilidade das variáveis ao observar as projeções do Itaú BBA que foram atualizadas na primeira quinzena de maio. Nas figuras 2 e 3 podemos verificar o efeito reduzido de uma agressiva redução da Selic sobre as variáveis IPCA e PIB e na figura 1 fica claro a alta sensibilidade do câmbio.

 

Como a política monetária expansionista pressiona o câmbio? A taxa de câmbio é determinada, assim como todo preço, pela relação de oferta e demanda. A alta sensibilidade da taxa de câmbio a um corte de juros na situação econômica atual pode ser explicada principalmente pela saída de capital estrangeiro do país. No Brasil, a taxa de juros real -juros nominais com inflação descontada- foi por anos muito atrativa, mesmo com a instabilidade da situação fiscal e política nacional,  a remuneração muito mais alta que de países desenvolvidos era fator que captava grande quantidade de capital externo. Com a política expansionista que o país tem aplicado, a taxa real de juros tem reduzido cada vez mais. Se admitirmos as projeções apresentadas na figura 2, podemos perceber que em 2020 a redução da Selic para o patamar de 2,25%, com inflação esperada em 2% resultam em Selic real próxima a zero, tornando-se pouco atrativa quando comparada aos riscos já anteriormente citados, à medida que os juros reais tornam-se menos atrativos, parte do capital estrangeiro sai do país. Em outras palavras a demanda por moeda nacional reduz e consequentemente o câmbio deprecia. 

 

Qual o efeito da depreciação do câmbio na economia? A política monetária expansionista aplicada hoje no Brasil, como explicado anteriormente, é amplamente marcada por cortes agressivos na taxa Selic a fim de impulsionar a economia, um dos reflexos de tal política é a desvalorização cambial. Conforme a teoria econômica convencional, a desvalorização cambial pode ser um fator positivo para o país pois estimula as exportações, e o consequente crescimento econômico, já que a balança comercial -exportações menos importações- um dos componentes do PIB, aumentaria. Por outro lado, a desvalorização da moeda prejudica as importações e o país pode perder no longo prazo em industrialização. O exportadores se beneficiam da depreciação cambial até certo ponto, dado que a tecnologia, maquinários e peças de reposição são um fator essencial para a viabilidade e produtividade do processo produtivo, se a tecnologia é demandada globalmente pelos exportadores de todos os países, aqueles que possuem moeda mais forte a importam por menor custo e se destacam em vantagem competitiva.

 

Concluímos que, o esforço das autoridades monetárias em estimular a economia via cortes agressivos é válido para ajudar países a vencer crises e recessões. No entanto, ao manejar tais políticas é necessário cautela. Uma política monetária expansionista demasiadamente agressiva, marcada pelo exagero das medidas tomadas pelas autoridades monetárias, pode levar o país a uma recessão ainda mais profunda, principalmente quando em países em desenvolvimento que possuem situação fiscal e política instável. Devemos valorizar a importância da saúde da moeda para o crescimento de uma economia, dado que o dinheiro representa o outro lado de qualquer transação econômica, uma moeda instável reflete em uma economia igualmente instável.


 

 

 

 

 

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