Impactos da pandemia no Agronegócio

01/07/2020

 

A agricultura brasileira, de maneira diversa ao panorama que as demais atividades econômicas do país vêm apresentando, está se mostrando eficiente e gerando bons resultados.

 

Apesar do surto inicial, no qual a população movimentou-se em massa aos mercados varejistas para estocar suas moradias com grandes compras, no medo de um cenário semelhante ao da crise de abastecimento de 2018, relativa à greve dos caminhoneiros, observa-se que o suprimento de gêneros alimentícios aos centros urbanos manteve sua qualidade e periodicidade, fato que reflete a continuidade das atividades agrícolas do país.

 

Ainda, o setor não apenas demonstra estabilidade, como também um crescimento considerável. Durante o mês de abril, as exportações agropecuárias cresceram 59,7%, em comparação com o mesmo período de 2019, fazendo com que respondessem por 22,9% do total de vendas do Brasil ao exterior.

 

Se considerarmos o Complexo da Soja, que confere a principal exportação do Brasil, representando 42,76% do total de venda de commodities, observamos um aumento substancial do montante exportado, que chega a atingir recordes históricos. Apesar da queda abrupta no mês de janeiro, efeito tanto de uma colheita tardia, quanto da diminuição do volume da importação chinesa, maior consumidora dos produtos primários brasileiros, como consequência da assinatura de um tratado comercial entre o país e os Estados Unidos, a exportação do complexo de soja em abril cresce incríveis 66%, se comparada ao mesmo período em 2019.

 

O crescimento acentuado das exportações agrícolas brasileiras no período de janeiro até março deste ano, pode ser justificado como resultado da combinação de diversos fatores, que propiciam uma boa oportunidade de crescimento ao setor.

 

Dentre esses fatores podemos mencionar a alta taxa de câmbio do dólar, que ultrapassou o valor de R$5 (chegando a alcançar R$5,97, no dia 14 de maio). Dado o custo de produção em moeda local, no caso, o real, e a negociação dos produtos em dólar, a alta cotação da moeda norte americana resulta em um aumento significativo nas expectativas de lucro, impulsionando as exportações.

 

Além, houve ainda um aumento da demanda por produtos agropecuários por parte da China, com destaque especial para a carne suína (o país sofre com um surto de Peste Suína Africana, dizimando sua vara de porcos) e para a soja. Apesar do tratado assinado com os Estados Unidos, que prevê a compra de US$12,5 bilhões em produtos agrícolas estadunidenses, os laços comerciais vêm se fragilizando, consequência de um posicionamento hostil assumido por Donald Trump. Nesse cenário, o Brasil vislumbra uma oportunidade de ampliar suas negociações com o mercado chinês.

 

Outro aspecto importante é um aumento no número de mercados com os quais o mercado nacional negocia. De janeiro de 2019 até maio de 2020 foram abertos mais de 60 novos mercados ao país, em parte como forma de, por meio do aumento da demanda, intensificar a produção agropecuária do país, no objetivo não apenas de aumentar o PIB, como também de atingir o plano de segurança alimentar proposto pela ONU, o qual deseja aumentar a produção global de alimentos em 20% até 2030 (para atingir a meta o Brasil deve ter sua produção aumentada em 40%).

 

No entanto, apesar do crescimento do setor no curto prazo, em meio ao contexto de pandemia, é necessário considerar os efeitos desse evento sob uma perspectiva mais ampla. Desconsiderar os efeitos de longo prazo não promoveria uma análise verossímil da situação.

 

O impacto causado pelo Covid-19 nas questões logísticas é um dos principais pontos a se considerar. Como aponta Roberto Rodrigues, ex-ministro da agricultura, em entrevista dada à CIEE, a agricultura atual está visceralmente conectada ao ambiente urbano, tanto no fornecimento de insumos, maquinário e ciência para produção, quanto para o escoamento e distribuição dos produtos. Levando-se em conta o tamanho dos efeitos da doença nas operação das atividades urbanas, reflexos negativos podem ser sentidos no ritmo das atividades agrícolas.

 

Adicionalmente, serão grandes as consequências do alto valor do dólar. Apesar da alta cotação estimular as exportações, ela, de modo paralelo, dificulta a importação. Considerando que a grande maioria do maquinário e mais de 70% dos insumos utilizados no plantio brasileiro, como defensivos, sementes e fertilizantes, são importados, deve-se esperar um aumento dos custos de produção da área. 

 

Como principal resultado desse ambiente, podemos apontar uma dificuldade do agricultor em se preparar para as próximas safras, principalmente ao médio e pequeno produtor. Para o grupo, principal responsável pelo abastecimento interno do país, a redução na taxa Selic pode representar uma luz no momento de obtenção de crédito para financiar as próximas safras, mas a redução da produção será inevitável frente ao significativo aumento dos custos de importação.

 

Ainda, é válida a análise dos novos padrões de consumo decorrentes da situação. Apesar do pico de consumo observado no início do isolamento social, com pessoas no mundo todo correndo aos supermercados para estocar alimentos, a demanda por esses produtos tende a se estabilizar, podendo até apresentar uma pequena queda, resultante do declínio da periodicidade de se sair de casa.

 

Assim, conclui-se que, embora seja possível observar um bom desempenho do setor nesse primeiro momento, a perspectiva dentro do longo prazo não se apresentam tão favoráveis, principalmente aos menores produtores. Em detrimento do impacto do coronavírus, deve-se esperar uma diminuição do ritmo das atividade agrícolas, de modo simultâneo ao observado nas atividades urbanas, uma vez que, sob uma perspectiva logística, estão intimamente conectadas. Desconsiderando possibilidade de um posicionamento favorável à manutenção das atividades agronômicas em meio ao cenário de crise, o setor deve manter-se atento às consequências do ambiente atual sobre as questões econômicas, não se deixando levar por uma possível ilusão de um choque mínimo do contexto sobre suas operações , fruto de uma análise superficial, que considera apenas o crescimento das atividades agrícolas nesse primeiro momento.

 

 

 

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