O que é risco, afinal?

 

 

Podemos assumir que o objetivo principal das finanças corporativas é o de maximizar o valor. Com isso, surge uma implicação: escolher, dentre várias possibilidades, os melhores projetos para se investir. Para realizar tal escolha, o investidor deve ter em mente uma Taxa Mínima de Atratividade do projeto. Esta taxa deverá refletir o quão arriscado é um projeto, ou seja, o mínimo que um investidor se propõe a ganhar quando faz um investimento. Assim, tal taxa deve ser alta para investimentos arriscados e baixa para investimentos com menor risco. Para poder ser usada, toda esta ideia deve ser mensurada e transformada em um número e é aqui que os problemas começam.

 

Antes, vamos explorar um pouco o que, afinal, é o risco. Olhando primeiramente a definição da palavra risco no dicionário - “Probabilidade de prejuízo ou de insucesso em determinado empreendimento, projeto, coisa etc. em razão de acontecimento incerto, que independe da vontade dos envolvidos.” – vemos aqui já duas ideias importantes: a de probabilidade de prejuízo e de incerteza. Assim, podemos definir o risco, de forma simplificada, como o “grau de incerteza em relação à rentabilidade de um investimento, ou seja, a chance de o investimento gerar um retorno abaixo do esperado”. Mas o que seria o retorno esperado? Como defini-lo e mensurá-lo? Antes disso, gostaria de trazer um outro olhar para o risco, que irá nos ajudar a entender como essas expectativas de retorno se relacionam com o risco. 

 

 

Em geral, risco é visto como algo negativo, ruim, que deve ser evitado. Porém, prefiro me ater a uma definição milenar chinesa. É o símbolo 危机, que significa “crise”, e que na verdade, é composto de outros dois símbolos: um que representa perigo, e outro que representa oportunidade. Portanto, a preocupação central não deve ser em apenas evitar o risco, mas sim como incorporá-lo nas tomadas de decisão. Tal concepção nos mostra algo trivial, mas extremamente importante para definir quais serão os projetos ou investimentos que iremos realizar. Todos nós gostamos de oportunidades, certo? Todos nós gostaríamos de ter um retorno de 50% em um investimento, por exemplo. Porém, essa concepção nos traz um alerta: se você está disposto a ter 50% de retorno, deve estar disposto, então, para tomar um alto risco. Com isso, nos perguntamos: quanto de oportunidade eu devo ter para compensar um certo perigo?

 

E assim, compreendendo melhor o que é o risco, podemos, finalmente, procurar formas de mensurá-lo.

Primeiramente, existem, de forma superficial, três tipos de investimentos: os de baixo risco, os de alto risco e os livres de risco. Uma primeira forma de entender o risco pode ser como o desvio padrão de retornos presentes em torno de um retorno esperado. Nesse caso, seria uma medida de dispersão de uma série de retornos ou o quanto os retornos podem estar afastados da média, ou seja, sua imprevisibilidade.  

 

Em segundo lugar, existem dois tipos de riscos que devem ser observados. O primeiro, consiste no risco intrínseco ao projeto ou investimento que será realizado. Por exemplo, suponhamos que o “João” pretende abrir um bar. Ele espera, com isso, ter uma renda mensal de 10 mil reais. Um risco fácil de ser identificado nesse empreendimento é de que existe uma chance de que suas expectativas de retorno com esse projeto estejam erradas, uma vez que diversos fatores, intrínsecos ao seu negócio, podem ter sido superavaliados. Por exemplo: seu atendimento ou seu produto pode ser ruim, o que levaria menos pessoas a frequentarem seu bar, gerando menos receita, e com isso, um lucro menor do que o esperado. Já o segundo tipo de risco é o chamado “risco-sistêmico” ou risco de mercado, ou seja, riscos que irão afetar, de formas diferentes, todos os investimentos. Olhando novamente o exemplo do João, tal risco poderia ser uma contração na renda das pessoas do país em que ele possui seu bar, fazendo então com que seus consumidores gastem menos do que João esperava, ou também algo muito difícil e impensável de acontecer, que afetaria, novamente toda a economia, como é o caso de uma pandemia, que obrigaria lugares como o bar do João a fechar.

 

Finalmente, podemos olhar como, então, tais riscos são mensurados. Existem diversos modelos para realizar esta mensuração, todos com suas semelhanças, mas que divergem em pontos cruciais, sendo destaque quatro: o CAPM (Capital Asset Pricing Model), o APM (Arbitrage Pricing Model), Multi-Factor Models e Proxy Models. Porém, iremos olhar apenas, de forma introdutória, para o CAPM. Esse modelo levará em consideração a sensibilidade do ativo ao risco sistêmico ou de mercado, representado pela variável conhecida como beta (β), e também o retorno esperado do mercado e o retorno esperado de um ativo teoricamente livre de riscos. Algebricamente, então, temos: 

 

 

Sendo E(Ri) o retorno esperado da ação, Rf o retorno do ativo livre de riscos (risk free rate), βi o coeficiente que mede a volatilidade do ativo em relação ao mercado e E(rm) o retorno esperado do mercado. Vamos agora entender o que cada fator representa.

 

O primeiro fator, chamado de Risk Free rate (rf) corresponde a taxa de retorno que se pode obter ao investir num ativo que é considerado livre de risco, como títulos públicos do governo (assumindo que os governos são bons pagadores e não irão dar calote em suas dívidas). Ou seja, essa primeira parcela da equação corresponde ao retorno que o investidor teria caso estivesse postergando seu consumo (mesmo sem correr risco nenhum, ele já teria direito de receber essa taxa). Isso seria, economicamente, o custo de oportunidade do investidor de investir num ativo, já que ele teria como garantia essa rentabilidade, sem risco algum, e então, é intuitivo que o retorno esperado pelo investimento a ser feito deva ser no mínimo maior que este fator.

 

Já o segundo fator (βi[E(rm)-rf)]) corresponde ao prêmio que deve ser adicionado ao rf pelo risco que será tomado. Podemos dividi-lo na quantidade de risco (βi) multiplicada pelo “preço” do risco (E(rm)-rf), que chamaremos de prêmio de mercado (pm). Começando por este prêmio, vemos que, matematicamente, ele corresponde à diferença entre o E(rm) e a taxa livre de risco (rf). O que seria esse fator E(rm)? Nada mais é do que o retorno esperado do mercado, ou seja, o quanto um investidor pode esperar obter de retorno caso aplique num mercado específico (ex: rentabilidade histórica do mercado de ações). Já o beta (βi) é um pouco mais complexo de ser explicado.

 

O beta de uma ação corresponde ao coeficiente que irá medir o risco de uma ação comparada ao mercado, ou seja, quão volátil é a empresa. Para isso, precisamos da série histórica de retornos do mercado e da série histórica de retorno da ação. O beta seria então, de forma simplificada o coeficiente angular (inclinação) da reta de regressão entre o retorno do mercado e o retorno da ação. Assim, ativos com riscos maiores que o do mercado tem betas maiores que 1, enquanto ativos com risco menor que o do mercado tem betas menores que 1.  Portanto, a segunda parcela βi x pm diz respeito ao prêmio que deve ser adicionado ao retorno livre de risco (rf).

 

Com isso, descobrimos uma primeira forma de mensurar o risco de um ativo. Cabe ressaltar que existem diversas implicações nestes cálculos e nas relações demonstradas acima, sendo os modelos de mensuração de risco alvos de eternas polêmicas acerca de quão bem demonstram uma situação real e até onde vai sua aplicabilidade, uma vez que todos os modelos irão olhar para parâmetros passados para tentar prever algo que está no futuro, sendo que “não há risco no passado, todo risco está no futuro”.

 

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