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Hong Kong ainda é a fusão do Oriente com o Ocidente?

04/11/2018

 

       Considerada a região com a economia mais livre do mundo segundo o Index of Economic Freedom, Hong Kong é no geral uma região que é muito citada como exemplo do sucesso das políticas pró-mercado, principalmente por mostrar ótimas estatísticas econômicas, como seu PIB per capita (maior que o de países como Canadá, França, Reino Unido e Alemanha). Entretanto, apesar da percepção de que Hong Kong seria o “Santo Graal” do liberalismo econômico, é necessário entender mais a fundo como funciona a dinâmica econômica e governamental da região, para que não se caia em discursos superficiais como o antiquado embate entre keynesianismo x liberalismo.

       Antes de fazer uma análise do que é hoje a política econômica de Hong Kong, vale sempre a pena entendermos o que a precedeu, e por consequência, resultou nesse polo econômico do extremo oriente. Única região administrativa especial da China (regiões que detém maior autonomia do governo central chinês) além de Macau, Hong Kong é uma das cidades orientais que mais teve contato com o ocidente, devido ao fato de ter virado uma colônia inglesa após a Guerra do Ópio (1839 - 1842) como parte do acordo de cessar-fogo. A partir de então, a ilha virou um importante centro de comércio no pacífico, se tornando uma região de conexão entre o ocidente e o extremo oriente, o que fez ser inevitável que o território eventualmente acabasse adquirindo muitas características de seus colonizadores. Essa adoção de valores teve repercussões tanto em aspecto econômico como cultural: foi desde a adoção de políticas voltadas para a pouca atuação do Estado na economia até mesmo a adoção de costumes ligados a cultura inglesa, como a disseminação do críquete na região e a adição do leite ao chá quente para consumir (na china continental isso é em geral considerado uma “depravação” do chá).

       Levando mais em conta o aspecto econômico, é visível que foram uma série de fatores externos a Hong Kong que a levaram a esse caráter mais liberal, entre eles seu estabelecimento como um ponto central de comércio na Ásia, e o fato de sua população ser composta amplamente, principalmente pós-1842 com o final da Guerra do Ópio, de imigrantes, o que tornou possível que o governo não focasse primeiramente em medidas públicas voltadas para a expansão de sua intervenção. Esse aspecto facilitou a existência de um sistema tributário relativamente simples, criando assim um governo que conseguia manter sua receita principalmente com a taxação e posterior monopólio do ópio, que obteve até 1942.

       Esse ambiente de baixa tributação, junto com a eminente subida do Partido Comunista Chinês ao poder na China continental fez com que houvesse um grande êxodo para Hong Kong, trazendo algo que faria uma brutal diferença no rumo das ilhas rochosas - imigrantes - principalmente pessoas com conhecimento técnico e de gestão advindas de Xangai, então o principal centro comercial e industrial da China. Para se ter ideia do fluxo de imigrantes que ocorreu nessa época, a população de Hong Kong que era de 600.000 habitantes no final de 1945, explodiu para 2.1 milhões em 1950. Essa nova dinâmica mudou o foco da economia da região, anteriormente especializada exclusivamente no comércio inter portuário, para uma região que tinha também uma grande produção manufatureira voltada para a exportação. Tal movimento foi amplamente beneficiado do trabalho conjunto com companhias de comércio britânicas que possibilitaram a entrada no mercado associado à Commonwealth, e mais tarde, no mercado norte-americano.

       Trazendo para a realidade de Hong Kong das primeiras décadas deste milênio, vemos diferenças significativas para a adaptação de sua dinâmica econômica aos modelos atuais. A proibição da produção e venda de ópio, por exemplo, substituiu a taxação do produto como principal fonte de receita governamental pelo controle da terra na região, que é emprestada para empresas por leasing (o aluguel de um bem por tempo determinado) com preço determinado por leilão. Além disso, pratica-se ainda um sistema tributário extremamente leve e simples, que taxa de 2 a 17% a renda e em 16,5% as companhias, em conjunto com uma política de não-taxação sobre dividendos e ganhos de capital, vista com bons olhos pelo mercado financeiro. A análise dos dados econômicos sugere que isso funcionou bem para o bolso do morador das ilhas rochosas: vê-se um aumento do PIB per capita de por volta de 5.500 em 1983 para cerca de 46.000 dólares em 2017. Em comparação, seu vizinho ao norte da fronteira evoluiu no mesmo período de tempo de 225 para cerca de 9.000 dólares.

       Contudo, não se pode tomar esses fatores como os únicos de relevância na região, visto que existe atualmente um grave problema que assola a questão de habitação nas ilhas, a ultravalorização do valor imobiliário. Segundo o The Wealth Report, Hong Kong figura como o segundo metro quadrado mais caro do mundo, e isso se dá justamente pelo fortíssimo controle governamental sobre a terra. Essa política, que infla o preço do metro quadrado, prejudica não somente os negócios e as empresas, mas também cria um grande problema de moradia, que traz grande dificuldade para a população que está à procura de casas e apartamentos. Segundo o Departamento de Planejamento de Hong Kong, cerca de 75% das terras não tem nenhum tipo de construção, o que não faz sentido se levado em conta que o preço dos imóveis sobe de forma inorgânica, dado ao fato de que o Estado não aumenta a quantidade de terras para o leasing. Essa estratégia é ruim para os habitantes de Hong Kong, que não conseguem pagar os astronômicos preços cobrados, causados por uma necessidade do mercado de repassar os preços devido a essa forma artificial que o governo da ilha tem de manter os preços de terra crescentes.

       Além disso, Hong Kong vê sua autonomia cada vez mais ameaçada pelo governo central chinês, apesar de Pequim ter afirmado que respeitará a autonomia da ilha até 2047 segundo a política de “Um País, Dois Sistemas” de Deng Xiaoping. Algumas medidas já demonstram que muito provavelmente a China não está disposta a esperar todo esse tempo, e muito disso se deve principalmente à decrescente relevância econômica de Hong Kong em relação ao PIB chinês, que segundo o Banco Mundial chegou a ser 27% em 1997 e agora beira os 3%, em meio ao crescimento de outras megacidades chinesas que diminuem o antigo brilho da ilha.

       Assim sendo, ao longo dos últimos anos vê-se algumas ações relevantes, como uma tentativa de controle pelo governo central para assegurar candidatos pró-China nas eleições de Hong Kong do começo desse ano, além da tentativa de impor materiais escolares idealizando o governo central chinês, de forma a indiretamente minar a autonomia da região ao longo do tempo. Tais artifícios deixam em dúvida se daqui há alguns anos ainda teremos uma Hong Kong autônoma, tanto politicamente quanto economicamente, o que sem dúvida deve ser uma preocupação do mercado, que teme por seus investimentos a longo prazo, dada a incerteza que as ações realizadas por Pequim geram quanto ao futuro de temas que vão desde tributação até a forma de como se ditam os processos políticos na região.

       Dados esses perigos à espreita das ilhas rochosas, é sempre bom manter um olho atento na região para entender como esses impasses estão sendo resolvidos e se isso é favorável ao mercado ou não, pois, no final das contas, caso o Estado não aja em favor de seus habitantes e do mercado para a adição de novos terrenos para leasing, e se movimentos como a Revolução dos Guarda-Chuvas não conseguirem segurar a autonomia da região como vêm segurando, podemos vislumbrar uma Hong Kong com tendências cada vez mais centralizantes e menos liberais.

 

 

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