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NAFTA de roupa nova

01/11/2018

     Em janeiro de 2017 parecia que nada conseguiria escapar à fúria de Donald Trump. Logo após assumir a presidência, um dos primeiros atos do 45º presidente dos Estados Unidos foi a retirada do país da Parceria Transpacífico (TPP), acordo multilateral de livre-comércio entre 12 países banhado pelo oceano. O acordo, ainda não implementado, havia sido resultado de negociações que podem ser traçadas desde 2005. Trump, eleito com uma plataforma protecionista, de oposição aos acordos de comércio multilaterais que o governo americano se esforçou tanto para conseguir nas décadas anteriores, já havia se mostrado descontente com o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) - acordo trilateral que envolve Estados Unidos, México e Canadá. Em frase polêmica, o presidente disse que o tratado era “talvez o pior acordo já assinado em qualquer lugar do mundo”, prometendo acabar com ele ou alterá-lo radicalmente. Naquele momento, tudo indicava que o NAFTA teria um fim similar ao TPP.

     Já eram meados de 2018 e as ameaças de fim do NAFTA não tinham sido cumpridas. A incerteza dos investidores internacionais era imensa, já que a qualquer momento Donald Trump poderia querer acabar com o tratado. Esse temor generalizado não era infundado, uma vez que poderia ter efeitos bastante negativos sobre as economias mexicana e canadense, essa, com 65% do seu PIB correspondente ao comércio exterior - em 2017, 76% das exportações do país foram compradas e 51% das importações foram providas pelos Estados Unidos. Para aumentar a tensão, havia também ansiedade quanto ao futuro do México, que elegeu recentemente um presidente com forte retórica de esquerda.

     Tudo mudou no dia 27 de agosto, quando Trump anunciou um acordo bilateral com o México, a fim de substituir o NAFTA, mas mantendo regras similares ao tratado antigo. As mudanças previstas eram em relação aos automóveis, produto muito relevante para todos os países da América do Norte. Apesar de menos vantajoso para o México, pelo menos o novo acordo não traria nenhuma revisão radical do status quo, o que agradou os mercados. Como resposta, surge uma onda de confiança, que por consequência gera uma subida repentina no valor do peso mexicano e da NASDAQ, mercado de ações americano. A despeito do otimismo, a falta do Canadá no acordo ainda era uma questão séria que deveria ser resolvida.

     Até a formalização do Canadá no novo acordo, passaram-se dias de atrito diplomático entre os Estados Unidos e o Canadá. Para que o vizinho do norte fosse aceito no novo acordo bilateral, Trump queria que o primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, revisasse o funcionamento da produção de laticínios no país. Apesar de os derivados de leite representarem menos de 1% do comércio total entre as duas nações, os negociadores americanos estavam dispostos a desmantelar as tarifas e as políticas de controle de oferta que o Canadá aplica nos laticínios. Essas práticas canadenses de estabelecimento de preços mínimos, quotas de produção e tarifas altíssimas sobre produtos de origem agrícola são arduamente defendidas pelo poderoso lobby de fazendeiros, especialmente daqueles da província do Quebec, que argumentam sobre a sua necessidade para preservar a estabilidade e o atual modo de vida rural.

     Após articulações domésticas, o Canadá conseguiu aceitar algumas das demandas e finalmente entrar na negociação, surgindo, então, o desenho daquilo que viria a ser o novo acordo. Agora chamado de “Acordo Estados Unidos-México-Canadá” (USMCA), esse tratado manteria as mesmas características gerais do NAFTA, apenas com mudanças relativamente pontuais.

     A primeira mudança imposta por Trump, que já havia sido negociada bilateralmente com o México, é em relação à produção de automóveis. Com a clara intenção de prejudicar as manufaturas chinesas, agora 75% das peças utilizadas em carros feitos na zona deveriam ser originárias da própria América do Norte, em contraste com a antiga alíquota de 62,5% do NAFTA. Também foi acordado que 40% do valor de qualquer automóvel feito nos países do USMCA deveria ser produzido por trabalhadores com salário de ao menos $16 por hora, visando evitar que montadoras de carros americanas mudassem suas linhas de produção para o México, país com menores salários médios. No que diz respeito aos laticínios canadenses, agora esse país deveria prover mais acesso ao mercado para produtores americanos. Por fim, a cláusula que gerou mais controvérsia foi a estipulação de um prazo de 16 anos ao final do qual o tratado acabaria caso os agentes envolvidos não quisessem estendê-lo.

     O USMCA, que foi ironizado pelos periódicos estadunidenses como sendo apenas um NAFTA com o nome modificado, parece ter sido mais uma exceção do que uma regra na política comercial agressiva de Donald Trump. Apesar de o formato original do NAFTA não ter sido bruscamente alterado com o novo tratado, o presidente americano se mostra menos tolerante quando as negociações comerciais não são com seus vizinhos. Para ilustrar, a presente guerra comercial com a China, outro evento que vem fazendo os investidores internacionais arrancarem os cabelos, apenas se intensifica e não há sinal de trégua por parte de nenhum dos dois países.

 

 

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