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Visão 2030: a diversificação da Arábia Saudita

     A Arábia Saudita é conhecida, mundialmente, por ser a maior exportadora de petróleo do mundo. Não é por menos que cerca de 80% das receitas do reino provêm dessa commodity. Assim, fica claro que sua economia é reflexo das variações do petróleo no mercado internacional, o que faz com que o país não detenha o controle absoluto sobre o destino de sua economia.

     O governo saudita configura um Estado paternalista, pois dois terços dos trabalhadores estão empregados no setor público, a tributação incide somente sobre as empresas e fornecem à sua população serviços públicos, como eletricidade e água, a preços subsidiados. Isso mostra que os gastos do governo são gigantescos e as receitas com arrecadação de impostos são muito limitadas.

     Aliado a isso, a monarquia saudita, no ano de 2015, aumentou seus gastos militares, atingindo a marca de 13% do PIB, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.Esse fato se deve àa tensões regionais atualmente existentes, nas quais o governo saudita, por se tratar de uma potência regional sunita, se vê responsável em apoiar a maioria dos grupos de mesma vertente islâmica, como, por exemplo, o governo do Iêmen e os rebeldes na guerra da Síria.

     Considerando todos esses aspectos, para suprir os altos gastos, é fundamental que o preço do petróleo se mantenha alto. Porém, desde o segundo semestre de 2014, os preços despencaram, chegando abaixo de US$ 30 por barril. O impacto nas receitas do reino foi catastrófico, o que exigiu o uso de US$ 115 bilhões das reservas internacionais do país para cobrir o déficit nas contas públicas em 2015.

     O mal momento do petróleo também se reflete na mudança do comportamento das grandes empresas petrolíferas. No decorrer de 2015, cerca de 68 projetos, até então considerados essenciais para sustentar a oferta mundial de petróleo, com um custo total de US$ 380 bilhões, foram engavetados, de acordo com a empresa de consultoria Wood Mackenzie.

     Os cortes nos investimentos revelam que o pessimismo do mercado não parece ser apenas resultado de desdobramentos recentes, e sim do futuro do petróleo, principalmente, devido a crescente preocupação dos governos com o aquecimento global. Isso se traduz em incentivos para expansão do uso de fontes de energia que minimizem a emissão de gases do efeito estufa.

     Recentemente, 178 países assinaram o documento proposto pelo Acordo de Paris, comprometendo-se a adotar medidas que limitem o aquecimento global em 2°C. Isto significa que pelo menos dois terços das reservas de combustíveis fósseis terão de permanecer intactas, aponta o relatório da instituição britânica Carbon Tracker. Assim, para atingir as metas estabelecidas em Paris, será necessário um avanço no desenvolvimento de tecnologias verdes, principalmente no setor de transporte, que consome cerca de 63% da produção mundial de petróleo, segundo a International Energy Agency,em 2013.

     Projeções estimam que em 2022 já será possível fabricar veículos elétricos leves com custo e autonomia equivalentes aos carros a combustão, o que levaria a uma mudança irreversível na demanda por combustíveis a base de petróleo. Portanto, em um cenário no qual o mercado energético sofre uma série de mudanças e o petróleo não apresenta perspectivas de aumento dos preços para o futuro, fica insustentável a Arábia Saudita manter a dependência da renda do petróleo e dos altos gastos públicos. Observando todos esses movimentos, o país anunciou um conjunto de medidas visando a diversificação de sua economia, utilizando suas enormes reservas de petróleo como alavanca para executar um ambicioso plano de reestruturação econômica: a Visão 2030. Essa agenda tem como objetivo encontrar novas fontes de receita para o reino, a fim de alcançar a “independência” das exportações de petróleo até 2030.

     A medida que terá o maior impacto será o IPO da maior companhia petrolífera do planeta: a Saudi Aramco. Analistas avaliam a empresa em torno de US$ 2 trilhões, mas o valor pode chegar à US$ 10 trilhões. Inicialmente, serão ofertados 5% dos ativos, avaliados em US$ 100 bilhões, correspondentes ao transporte e distribuição de derivados do petróleo. O restante dos ativos será transferido para o reformulado fundo soberano saudita. Dessa forma, estima-se que o valor do fundo alcançará cerca de US$ 3 trilhões. Com esse montante, o governo saudita pretende investir em ativos ao redor do mundo, garantindo receitas não provenientes da exportação de petróleo.

     Mas, por que alguém investiria no setor petrolífero consciente dos desafios que o ouro negro terá que enfrentar nos próximos anos? A resposta dos sauditas está no custo de operação da Saudi Aramco. Apesar do futuro sombrio do petróleo, a demanda deve persistir para as empresas capazes extrair a custos mínimos, como é o caso da Aramco, que apresenta um custo operacional com média de US$ 12 por barril, cinco vezes menor que as empresas que exploram o Mar do Norte.

     Com uma vantagem competitiva invejável, a gigante saudita parecer ser o sonho de consumo de muitos investidores. Contudo, a falta de transparência da companhia pode atrapalhar os planos do reino. Por anos o governo tem mantido sob total sigilo os demonstrativos financeiros da Aramco, sendo difícil ganhar a confiança dos potenciais investidores. Por isso, a abertura de capital, prevista para 2017, é tão importante, pois dessa maneira será possível que o mercado observe a real performance da companhia, garantindo que as posteriores ofertas de ativos da Saudi Aramco poderão ser executadas com menos desconfiança. O sucesso do IPO será o ponto de partida para transformar a Arábia Saudita em uma economia mais dinâmica.

     Além de receber aportes de capital estrangeiro na maior empresa do país, o governo também quer atrair investimentos para estimular o setor privado. O principal motivo é criar novos postos de trabalho para desafogar o setor público, que tem se mostrado incapaz de absorver a oferta de mão de obra crescente da população jovem. Hoje, a taxa de desemprego da população abaixo de 30 anos está entre 20 e 25% uma das mais altas do mundo.

     A “Visão 2030” pode ser a saída da Arábia Saudita para evitar as incertezas do futuro dos combustíveis fósseis. Porém, é extremamente difícil realizar uma mudança estrutural de tal tamanho em um dos países mais conservadores do globo. O reino saudita segue umas das vertentes mais ortodoxas do Islamismo Sunita, o Wahhabismo, e possui uma das monarquias mais sólidas do mundo, a Casa de Saud. Mas, a grande esperança para o sucesso da “Visão 2030” repousa sobre o jovem vice príncipe Mohammed bin Salman Al Saud. Ele representa uma mudança bastante simbólica dentro da monarquia saudita, pois com apenas 30 anos e mesmo sendo o segundo na linha de sucessão, Salman é responsável por diversos cargos dentro do país, como exemplificado no diagrama. Assim, a conjuntura econômica pela qual a Arábia Saudita passa, aliada à popularidade de um príncipe com uma visão bastante liberal, viabiliza um projeto como a “Visão 2030”.

     Embora o plano não elimine completamente a dependência do país em relação ao petróleo, a “Visão 2030” abre uma série de potenciais investimentos internacionais na Arábia Saudita, visto que há setores pouco explorados pelo governo até então, como mineração, logística, indústria bélica e turismo religioso.

     Assim, a “Visão 2030” não limita-se somente a um esforço para equilibrar as contas para os próximos anos, ela é uma mudança estrutural complexa e cautelosa. Por isso sucessos iniciais são necessários para a completa adesão e apoio de grupos cruciais, principalmente aqueles que possuem maior chance de resistência com a perda de privilégios tradicionais. O sucesso do plano dependerá da habilidade da Monarquia Saudita de vencer a resistência interna e sinalizar aos agentes externos que o país está mais transparente e confiável. Por fim, o êxito de um projeto como a “Visão 2030”, promovendo reforma das instituições e a restruturação de incentivos econômicos fará com que outros países que enfrentam desafios semelhantes, serão inspirados a seguir o modelo saudita.

 

        Artigo publicado em setembro/2016 na 14ª edição da Markets St.

 

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