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Um paladino para o globalismo

03/04/2017

     Ninguém se surpreenderia se as eleições presidenciais francesas fossem decididas no segundo turno entre um radical de esquerda - Benoît Hamon adoraria cumprir esse papel - e Marine Le Pen, presidente da eurocética Frente Nacional. Ninguém esperaria que um ex banqueiro da Rothschild, velha conhecida do conspiracionismo, ex ministro de Hollande, que sai do Élysée com pouco mais de 4% de aprovação, e defensor ferrenho da UE e daquilo que ela representa estivesse a 1% de presidir a Quinta República. E eis que surge Emmanuel Macron.

     Macron parece defender tudo o que 2016 quis renegar. Ante o divisionismo que virou moda na política ocidental, lançou sua campanha propondo uma “revolução democrática” que não seja “uma luta contra uma pessoa, grupo ou parte da França”, mas sim “pelo bem de todos”. Sua defesa da unidade não se limita à França. “Somos todos berlinenses, somos todos europeus”, disse após o atentado ocorrido em Berlim. Como se não bastasse, em um discurso feito na Universidade de Humboldt, Macron abriu sua fala explicando que, como pretendia ser entendido por sua platéia, não faria sentido falar francês. Daí em diante, defendeu em inglês fluente a União Europeia, o mercado comum europeu, o euro. Tudo que um bom populista detesta. Le Pen, monoglota, não tardou a atacálo: “O candidato à presidência, Macron, foi à Berlim falar inglês... Pobre França!”. François Fillon, candidato pelo partido Republicano - outrora de Charles de Gaulle, hoje de Nicolas Sarkozy - se poupou de adotar a fórmula Trumpiana, mas continua oposto à imagem de uma Europa mais forte e unida. É difícil culpá-lo; dados os ânimos recentes, qualquer um concordaria que defender Bruxelas é suicídio. Então por que Macron já tem quase tantos entusiastas quanto Fillon? De onde vem os 35% que o põem à frente de Le Pen em um eventual segundo turno?

     Certamente as pesquisas estão erradas. Afinal, elas já erraram nos Estados Unidos. Não errariam na França? Acontece que acertaram nos EUA, ao menos em nível nacional. Hillary Clinton ganhou, e muito, no voto popular. Mesmo no Colégio Eleitoral, o FiveThirtyEight, que agrega inúmeras pesquisas regionais para chegar aos seus resultados, dava 30% de chance de vitória para Donald Trump, um número nada insignificante. E de todo modo, desconsiderar pesquisas de opinião serve apenas para confundir, visto que sem elas ficamos presos a nebulosos achismos, sem nenhuma ideia real do que pode acontecer. Voltemos, então, à pergunta original.

     Não surpreende muito que Le Pen seja atropelada no segundo turno. Suas posições de extrema direita a tornam uma impossibilidade para qualquer eleitor levemente à esquerda. Estes acabariam optando pelo voto útil. Fillon, apesar de seu partido, teria apenas 5% a menos do que Macron (60% e 65%). 2002 viu um cenário parecido, quando Jean-Marie Le Pen, pai da candidata atual, disputou o segundo turno contra o republicano Jacques Chirac. Chirac recebeu 82,2% dos votos, batendo o recorde estabelecido por Louis Napoleon Bonaparte 144 anos antes. Não há razões para que isso não se repita caso Macron avance.

     Tampouco é difícil entender porque ele está à frente de Benoît Hamon, que saiu vitorioso das primárias conjuntas dos partidos tradicionais de esquerda. Hamon não conseguiu, até o momento, sequer unificar sua base. Mesmo que o fizesse, teria à sua frente uma batalha árdua para se dissociar da imagem do atual presidente sem abandonar suas linhas partidárias. E como Le Pen, muitas de suas propostas, como distribuir € 750,00 para todos os franceses indiscriminadamente, alienam a maior parte da população por seu radicalismo. Não foi à toa que o The Guardian o chamou de “o Jeremy Corbyn francês”. Corbyn, pelo menos, tem o apoio indiscutível de sua base partidária. O mesmo não pode ser dito sobre Hamon.

     Mas e François Fillon? Experiente, de um partido de oposição conhecido, derrotou grandes figuras nas primárias e tráz consigo a promessa de mudança. Muitos podem considerá-lo conservador demais; ele mostrou-se pouco simpático à comunidade LGBT no passado e revelou em um debate ser pessoalmente contrário ao aborto. Sua defesa do uso de quotas de imigração também divide opiniões, mas deve fazer com que ele surfe na onda nacionalista que cruza a Europa. E Fillon tem - ou deveria ter - uma grande vantagem sobre Macron: foi, do início ao fim, oposição ao governo de Hollande.

     A bem da verdade, Fillon ainda está no jogo, com boas 22% das intenções de voto. Muitos dos franceses tradicionalmente republicanos votarão nele. Foi só no fim de janeiro que Macron tornou-se uma ameaça real, quando uma investigação descobriu que Penelope, esposa de Fillon, era ricamente paga por uma função no governo na qual, aparentemente, nada fazia. Tanto dano foi feito à campanha que Fillon prometeu desistir da candidatura caso um processo formal seja aberto.

     Além disso, a postura “duplamente liberal” de Macron pode se mostrar poderosa. Uma mensagem econômica de mudança após os anos de governo do Partido Socialista livre do conservadorismo social típico da direita francesa deve atrair muitos eleitores urbanos abandonados pelo radicalismo que consumiu o restante dos candidatos. E se Fillon se aproveita do nacionalismo, seu adversário ganha votos pela imagem de outsider, já que não se identifica com nenhum dos partidos tradicionais do país.

     Curiosamente, o principal problema de Macron não são as pesquisas. Apesar de seus discursos e popularidade crescente, o candidato do En Marche! parece ter dificuldades em transformar ideais em ações, como Fillon fez questão de deixar claro ao dizer que “quando Emmanuel Macron tiver um programa, eu comentarei. Por hora, ainda não vi nada”. O problema o levou a cancelar sua participação em um evento que contaria com mais de 200 mil pessoas para poder estar presente em “dez reuniões de última hora”, segundo a campanha. Cerca de 400 especialistas divididos em oito grupos, cada um com dezenas de subdivisões, devem compor mais de 300 propostas detalhadas para revisão de Macron. Com a entrega do programa prometida para o final de fevereiro, parece seguro dizer que a questão está sendo levada à sério.

     Caso seja de fato “duplamente liberal”, o plano de governo de Emmanuel Macron deve ser um documento considerado fruto das elites globalistas por Trump, venda de soberania para Bruxelas por Farage, entrega da França à ameaça muçulmana pelo AfD. Ao mesmo tempo, Sanders o consideraria fruto da elite de Wall Street, Corbyn gritaria que ele quer vender o estado de bem estar social francês e o Syriza denunciaria a entrega da França à ameaça capitalista. Angela Merkel, vendo no horizonte a chance de ter um aliado em sua luta contra a volta do populismo, respiraria aliviada. Somos todos berlinenses.

 

        Artigo publicado em abril/2017 na 16ª edição da Markets St.

 

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