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O Brasil frente à imigração

06/07/2017

     Quem lê jornais estrangeiros às vezes tem a impressão de que existem dois mundos diferentes: um coberto pelo New York Times, Der Spiegel e Le Monde e outro no qual escrevem Estadão, Folha e Globo. Postas à parte as questões regionais, as primeiras páginas daqueles tratam de assuntos que, apesar de serem preocupações globais, nunca saem dos cadernos de política externa destes. Os debates de política de identidade versus nacionalismo, por exemplo, não parecem chegar aqui com a mesma força. E mesmo tendo recebido quase o dobro de sírios fugidos do que os Estados Unidos, raramente fala-se na crise dos refugiados como uma questão que envolva o Brasil diretamente, adotando-se, em lugar disso, uma postura de observador passivo e horrorizado.

     Não é de hoje que o Brasil recebe refugiados. Às vésperas da Primeira Guerra, essas terras eram um destino popular para europeus pobres fugindo das crises de seus países em busca dos empregos propagandeados por barões do café que, desesperados por mão de obra branca, pintavam uma Eldorado de oportunidades nas lavouras. Contratar os negros recém libertos que, embaixo de sol e chibata, haviam aprendido o ofício e não impunham aos patrões o custo dos transatlânticos era impensável. A eclosão do conflito pouco fez para estancar o fluxo, somando a guerra aos motivos da imigração. É impossível também deixar de perceber o impacto que esses refugiados - vindos por razões parecidas com as que moveram bósnios em 90 e sírios hoje - tiveram no país. Matarazzo, Gerdau, Lemann e Saverin dificilmente são nomes que teriam sido vistos nos trópicos antes das ondas migratórias da virada do século.

       O preconceito contra eles é também recorrente. Em 2015, menos de 40% dos haitianos residindo no Brasil estavam empregados. Quase cem anos antes, em 1926, a Folha da Manhã publicava um editorial furioso exigindo a fechada das fronteiras. “Nem sempre”, argumentava o jornal, “são postos o devido cuidado e a precisa vigilância na admissão dos imigrantes que, muitas vezes, constituem-se em fatores negativos, desviando-se do fim que os trouxe ao Brasil”. E, em março, o deputado Jair Bolsonaro disse que “Não podemos abrir as portas para todo mundo”. Mais interessante, porém, foi a afirmação seguinte: “Alguém já viu japonês na rua pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”. Apesar de não se manifestar sobre seus antecedentes italianos, o deputado nos deu uma preciosa janela para sua mente em 2015, quando afirmou que refugiados são “ a escória do mundo”.

          Em ambas as ocasiões demonstra uma curiosa afinidade com o editorial da Folha da Manhã: parece abrir os braços para imigrantes “com propósito” para, em seguida, fechar as portas aos “degenerados”.

         A semelhança não surpreende. Há, afinal, apenas um argumento contra a imigração, alterado e adaptado conforme os ânimos correntes: o velho discurso de nós contra eles. Ele surge sob, principalmente, duas máscaras. A primeira, social, apresenta o estrangeiro como uma figura irreconciliável com o nativo, que virá contrabandear sua cultura nociva e levar o país inteiro à degeneração moral. Essa apresentação permite a seus portas voz restringir grupo de indesejados sem grande esforço, estabelecendo certos grupos como “dos nossos”. Assim, a Folha da Manhã condena todos os imigrantes com o mesmo instrumento que Bolsonaro usa para exaltar a parte japonesa deles. O segundo, econômico, é contra todo e qualquer invasor, já que eles virão roubar preciosos empregos de nacionais trabalhadores.

     O primeiro é para seus defensores artigo de fé; não é uma posição embasada em linhas críticas de pensamento, o que faz dele imune a ataques por essas linhas. Não poderia ser diferente, visto que eles, além de óbvios, desmontam inteiramente as bases do argumento. Como dizer que a imigração destruirá o Brasil se países com quase cem vezes mais imigrantes - 93 no caso do Canadá - permanecem à nossa frente em todos os índices de educação, criminalidade e qualquer outro que cairia com a perdição moral da população? Como acusar imigrantes de serem ladrões e vagabundos incuráveis se eles são uma minoria inexpressiva na população prisional de praticamente qualquer país? Só negando a realidade, posição que os adeptos desse credo não hesitam em tomar. O segundo é muito mais pernicioso, por poder ser envernizados por várias justificativas bastante sólidas à primeira vista.

     Afinal, trabalhadores estrangeiros, reconhecendo que por causa de preconceitos não serão contratados por certos empregadores, se dispõe a ofertar seu trabalho a um preço menor. Os nacionais, acostumados a um nível salarial mais alto, continuam exigindo os mesmos valores. O empregador, por fim, engole suas crenças e contrata o estrangeiro, maximizando seus lucros. Alternativamente, a simples presença dos imigrantes, por aumentar a oferta de trabalho, reduz o salário de todos os residentes, alguns dos quais perdem seus empregos para os recém-chegados.

          Ou assim argumentam os detratores da imigração. Felizmente, economia é uma ciência empírica, o que significa que há economistas dispostos a colher dados para então derivar os motivos. E os dados são claros: se é que a imigração - seja de doutoras ou peões de obra - tem algum efeito sobre salários, ele é positivo. Apesar de parecer contraditório, esse dado é explicado de forma tão simples que surpreende: os imigrantes consomem. Assim, apesar de aumentar a oferta de trabalho, eles aumentam também a demanda por diversos bens, impelindo firmas a produzir, e portanto contratar mais. É em parte por causa desse aumento na demanda por trabalho que, em média, salários e nível de emprego não sofrem com a entrada de novas pessoas no mercado de trabalho. Um importante estudo do tema foi feito por Giovani Peri e Gianmarco Ottaviano em 2012, no qual eles estimaram o impacto da imigração sobre salários nos EUA entre 1990 e 2006 como aproximadamente +0,6%. O mesmo estudo concluiu que imigrantes pagam mais impostos do que nativos, pondo em cheque o argumento europeu de que eles sejam parasitas dos estados de bens estar social.

        O erro conceitual por trás da suposição de que imigrantes reduzem os salários e aumentam o desemprego de nacionais é tão conhecido no meio acadêmico que recebeu um apelido. A “falácia da massa de trabalho” é um dos poucos pontos em que há relativo consenso entre economistas.

           Se por um lado as duas formas de oposição à imigração aparecem juntas com frequência, elas também acabam produzindo uma imagem curiosa: um imigrante que é um vagabundo e criminoso intratável, mas que ao mesmo tempo se dispõe a trabalhar por salários mais baixos e em condições piores do que o normal. Não é à toa que essa figura é frequentemente comparada ao gato de Schrodinger, que estaria vivo e morto ao mesmo tempo.

          Então o que motiva o sentimento anti imigração em países da Europa e nos EUA? David Card, professor de economia em Berkeley, acredita ter a resposta. Em um estudo publicado em 2011, Card chama atenção para um fator até então relativamente ignorado por economistas nesse tópico: a composição populacional. Card propõe que “preocupações com amenidades composicionais” são de duas a cinco vezes mais importantes do que as econômicas no que se trata de como uma pessoa vê a questão da imigração. Por amenidades composicionais, ele se refere a quão importante é para um nacional que ele se identifique com seus colegas de trabalho, vizinhos e companheiros de sala. Assim, preocupações econômicas seriam apenas a forma como parte da população justifica para si mesma o que é, na verdade, um mal-estar puramente cultural e bastante compreensível. Embora pouco importante para os habitantes de grandes centros urbanos, onde partidos progressistas costumam ter maioria confortável, comunidades locais têm um papel central na vida de parte das populações interioranas de países europeus e dos EUA, de forma que a perda dessa sensação de pertencimento é uma noção insuportável. Mas ainda que preocupações composicionais deem uma motivação “racional” para o anti imigracionismo - isto é, evidencia a troca de salário por conforto que está sendo feita pelos nativos - ela não se aplica a qualquer país. Compreende-se que um americano WASP, em cujo país 14% da população é de imigrantes, sinta-se desconfortável pela presença de estrangeiros “em excesso”. Essa afirmação dificilmente pode ser feita para o Brasil, que, além de muito mais miscigenado do que os EUA, mal chega a 0,3% de população não nativa.

           Nos últimos tempos, porém, uma nova e potente arma foi adicionada ao arsenal anti-imigração: a defesa da segurança nacional. A popularização de ataques terroristas feitos por “lobos solitários” auto radicalizados fortaleceu aqueles que entre portas abertas e fechadas escolheriam um muro. Pouco lhes importa que a imensa maioria dos atentados seja feita por filhos e netos de imigrantes, ou que sua radicalização se deva à propaganda extremista de grupos que só existem devido ao fracasso dos EUA e seus aliados em re-estabilizar o oriente médio após lançá-lo às chamas da guerra e destruir estados que, se autoritários, ao menos existiam. Organizações como a Al Qaeda, Hezbollah e ISIS não surgiram na Turquia e no Marrocos não porque seus habitantes sejam “menos” muçulmanos, mas sim devido às instituições de controle da força que lá imperam. Países como o Iraque e o Afeganistão, que mal controlam as imediações de suas capitais, não tem como fazer frente a esses grupos. Evidentemente a generosa ajuda externa que xiitas recebem do Irã e sunitas da Arábia Saudita faz pouco para convencê-los a depor as armas. É muita sorte dos opositores da imigração que o petróleo iraniano não tenha dado ao aiatolá o mesmo nível de imunidade que a casa de Saud comprou com o seu. Deve ser reconfortante saber que mesmo que vençam os terroristas da vez, sempre haverá em Teerã um inimigo para assumir o papel do “eles” e avivar a retórica nativista.

           Visto que não há razões reais para uma oposição absoluta à imigração, é natural que o discurso xenófobo ande de mãos dadas com o ufanismo. Qualquer político que tenha mais esperteza do que escrúpulos fará as contas em sua cabeça e concluirá que o populismo fanático do “nós contra eles” tem mais poder de convencimento do que velhos acadêmicos em conceituadas escolas. E que forma melhor de apresentar o “nós” do que como defensores da pátria amada, irmãos em armas contra as hordas bárbaras? Vem à mente algo sobre patriotismo e refúgios.

 

        Artigo publicado em julho/2017 na 17ª edição da Markets St.

 

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