Gestão Macri: 12 anos em 5 meses

01/06/2016

     Calle Florida, zona central de Buenos Aires. A rua que nos últimos anos foi o retrato da contínua depreciação do peso argentino e da perda do poder de compra da classe média portenha parece retomar seus dias de normalidade. O intenso comércio do dólar paralelo (Dólar Blue) que fomentava a região foi completamente extinto a partir do final de 2015, quando o novo governo, em cumprimento a uma de suas principais plataformas eleitorais, decretou o fim das restrições cambiais que vigoravam desde 2011. O então “Cepo Cambiario” estrangulava todos os setores da economia argentina e era responsável por fortes distorções econômicas: o dólar paralelo chegou a atingir valor 90% superior frente à cotação oficial.

     O choque de gestão promovido por Mauricio Macri iniciou-se ainda na formação de sua equipe econômica, tendo como principal nome o novo ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, ex-diretor de estratégia do Banco de Investimentos americano JP Morgan e ex-presidente do Banco Central Argentino entre 2004 e 2005. A indicação deixou claro o forte redirecionamento na condução da política econômica, atraindo maior confiança do mercado.

     A mudança parece ter surtido efeito. A rápida resolução do impasse e a liberação do pagamento de US$ 9,3 bilhões de dólares aos credores da dívida reestruturada pós-default de 2001, “os fundos abutres”, cuja batalha judicial se arrastava nos tribunais de Nova York há anos, recolocou o país no mercado internacional, elemento chave para o desenvolvimento, e teve sua nota creditícia elevada pela agência de classificação Moody’s de “Caa1” para “B3”.

     Contudo, os principais desafios - de retomar o crescimento e controlar a inflação - se mostram mais complexos, ao passo que a real situação das contas públicas, após 12 anos de Kirchnerismo, vai ficando mais clara. O déficit público esperado para 2016 subiu para 7%, o mais alto em 40 anos, enquanto o Banco Central, quando o novo governo tomou posse, apresentava uma das mais baixas taxas de reservas internacionais da última década - US$ 24,5 bilhões de dólares.

     Depois de anos de populismo com as contas públicas e o rombo financeiro decorrente do mesmo, o necessário fim dos subsídios provocou um aumento de até 600% nas tarifas de energia elétrica e 100% no preço do transporte público na Grande Buenos Aires. Aumentos nas tarifas de água, gás e combustíveis também foram aprovados a fim de sanar o déficit que só tende a aumentar com uma perspectiva de inflação acima dos 30% ao final de 2016.

     Dentre as reformas mais aguardadas está a reestruturação do INDEC, o Instituto Nacional de Estatísticas, o qual sofreu fortes intervenções a partir de 2007 e, desde então, apresentava dados totalmente incompatíveis com a realidade econômica e social apontada pelo mercado e organismos privados de pesquisa. “Na Argentina, existem menos pobres do que na Alemanha” chegou a afirmar Aníbal Fernandez, ex-chefe de gabinete da então presidente Cristina Kirchner. Segundo o governo, a completa reestruturação do Instituto levará cerca de oito meses, dado o completo aparelhamento e destruição do organismo promovido pelas gestões passadas.

     Mesmo com as importantes mudanças promovidas pela nova gestão, o Fundo Monetário Internacional (FMI) planeja uma recessão de - 0,7% para este ano com retomada do crescimento somente a partir de 2018. Em meio a esse cenário, a iminente onda de demissões começa a afetar o país. Ainda segundo o FMI, estima-se que o desemprego atingirá cerca de 9% até o final do ano.

      Frente a tal situação, o presidente Mauricio Macri se prepara para enfrentar sua primeira grande batalha no congresso: a oposição pretende aprovar o projeto de lei “anti-demissões”, que dificultaria o empregador a readequar seu quadro de colaboradores, sendo que a Argentina já apresenta uma das legislações laborais mais rígidas da América Latina.

          Atração de novos investimentos

    A predisposição do governo em ampliar a partição argentina no cenário internacional não se limitou ao campo econômico. O protagonismo de Macri na reunião do Fórum Econômico Mundial ocorrida em janeiro, em Davos, na Suíça, foi fundamental para a gradual retomada da confiança internacional, assim como a histórica visita de Barack Obama à Argentina em março, após mais de dez anos de tensas relações. O encontro marcou um novo passo para a diplomacia na região, da mesma maneira que também foi crucial a visita do presidente francês François Hollande à Casa Rosada em fevereiro, durante a qual foram firmados 22 acordos de tecnologia e ciência, além de maior facilidade em investimentos multilaterais.

     O bom humor com relação à Argentina também tem chamado a atenção de multinacionais brasileiras com sucursais no país platino. A fabricante de ônibus Marcopolo prevê um aumento na demanda de até 50% e o frigorifico JBS, com planta em Rosário, espera uma retomada nas exportações após o fim do controle cambiário. Essa realidade vem na contrapartida do que foi observado nos últimos anos, já que os investimentos diretos brasileiros vinham caindo significativamente. Em 2012 foram US$ 618 milhões de dólares; já em 2015 ficaram por volta de US$ 109 milhões de dólares, segundo o Banco Central Argentino.

     Contudo, grandes desafios ainda precisam ser superados para a melhora no ambiente comercial. De acordo com o ranking Doing Business 2016, do Banco Mundial, que avalia o cenário de negócios das 189 nações membros do organismo, a Argentina figura na desconfortável posição de 121º, logo atrás do Brasil (116º).

 

        Artigo publicado em junho/2016 na 13ª edição da Markets St.

 

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