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Adeus, Londres!

     Desde o século XIX, a City of London, o histórico distrito financeiro londrino, converge operações de capital ao redor do mundo alocado nos grandes bancos globais residentes na metrópole britânica. Ao longo dos anos, surgiram novos centros financeiros mundiais, tais como Nova York, Frankfurt, Tóquio e Hong Kong, mas nada ofuscou Londres. Mesmo após a decadência do Império, somada à perda de preponderância político-econômica internacional no pós-Guerra, os pilares do sistema financeiro londrino continuaram inabalados. Todavia, essa história de êxito e tenacidade pode ter um final trágico muito em breve.

     Após meses de negociação, Downing Street, onde se localiza a residência do primeiro ministro britânico, não conseguiu tecer um acordo com a União Europeia que permite às instituições financeiras do Reino Unido continuarem acessando os mercados do bloco sob as condições anteriores ao Brexit. O livre passaporte dos bancos deve ser revogado, levando esses a abandonarem suas operações na terra da rainha e migrarem para outro lado do canal da Mancha.

     Até recentemente, a maior distância percorrida pelo distrito financeiro de Londres foi apenas 5km à leste, para Canary Wharf, um centro financeiro mais moderno, porém na mesma margem do Tâmisa. Dessa vez, os bancos devem alçar voos mais longos, como Frankfurt e Paris, ou até mesmo Dublin. O lobby dessas cidades tem sido intenso, a fim de seduzir os banqueiros do maior centro financeiro do mundo, de acordo com o Global Financial Centres Index, a trazerem grandes somas de receitas e capital.

     Segundo relatório do Parlamento Europeu, o Reino Unido possui 24% do market share relativo a serviços financeiros na União Europeia. O setor emprega mais de 1 milhão de pessoas diretamente, faturando próximo à casa de £ 200 bilhões. Contudo, esses números podem se dissolver se as negociações no tocante à saída britânica do bloco não caminharem bem, fato que já está ocorrendo.

     A posição irredutível de Michel Barnier, negociador chefe da UE para a questão, tem delineado um futuro tenebroso para a economia do Reino Unido, visto que setor financeiro movimenta 11% do PIB, dos quais 55% são provenientes de serviços prestados a clientes da Europa Continental. Quando indagado sobre um tratado feito sob medida no tocante a serviços financeiros, Barnier disparou: “Brexit means Brexit, everywhere”.

     O endurecimento de Bruxelas já era esperado. Os líderes do bloco, em especial Alemanha e França, querem usar o exemplo anglo-saxão como um recado claro a futuros candidatos a deixarem o bloco: será uma batalha sangrenta e sem espólios.

     Apesar do rigor da UE em ceder o mínimo possível a Londres, a realidade dantesca vale para os dois lados. Um exemplo claro é o setor automobilístico alemão, que possui cerca de 100 plantas fabris localizadas na Grã-Bretanha, investimento realizado para suprir a demanda local e de outros membros europeus. Como se isso não bastasse, o país absorve um quinto dos veículos exportados, o maior mercado consumidor das marcas alemãs no continente. Logo, um acordo pouco amigável pode ser um mal presságio.

     Uma das opções trazidas à mesa para resolver a queda de braço foi a solução norueguesa: equivalência. A nação escandinava adotou as regras do Espaço Econômico Europeu (EEA, sigla em inglês), o que a permite desfrutar de vantagens do mercado comum do bloco, porém sem perder autonomia em questões jurídicas sensíveis, como assuntos internos, justiça, segurança, taxação, entre outros. Resumindo, o país incorpora uma estrutura legislativa consoante aos moldes da União Europeia em troca de vantagens comerciais. A desvantagem é a ausência do direito de legislar, pois não terá assento no Parlamento Europeu.

     Adotar o modelo norueguês seria uma boa saída econômica, mas um embaraço político. Todo motivo para deixar o bloco foi reconquistar a autonomia em todos os aspectos regulatórios, e não abrir mão deles. Em setembro, a primeira ministra Theresa May afirmou categoricamente em seu discurso em Florença que buscará o melhor acordo comercial possível, mas fará valer o clamor das urnas.

     A consumação do divórcio entre Londres e Bruxelas em março de 2019 deve deixar cicatrizes profundas em Canary Wharf. Depois de enfrentar crises e guerras, além dos ataques inescrupulosos de Nathan Rothschild, em 1815, e George Soros, em 1992, que quase liquidaram o Banco da Inglaterra, o golpe desferido pelo plebiscito de 2016 parece ter a possibilidade de executar o impensável: amputar o sistema financeiro de Londres.

     As ondas de choque devem se propagar muito além da capital. Cidades como Manchester, Birmingham, Edimburgo, Bristol, Leeds e Cardiff têm participação expressiva no mercado financeiro das Ilhas Britânicas e devem sofrer com perda de receita. Além disso, atividades periféricas, como consultoria e auditoria, que, somadas aos empregos diretos, totalizam 2,2 milhões de postos de trabalho na economia britânica, empregos que correm o risco de serem dizimados com uma migração massiva dos bancos para o continente. Mas os banqueiros londrinos devem ser mais afetados, pois Londres é a principal base de operação de bancos internacionais, aqueles com muitos motivos para deixarem o Reino Unido. Todavia, uma dúvida paira no ar: por que Londres? No que a cidade se diferencia de outros centros financeiros?

     Historicamente, Londres foi um dos primeiros centros financeiros mundiais, devido ao exercício do seu poderio econômico e supremacia ultramarina. Com um “império onde o sol nunca se põe”, nas palavras de John Wilson, o florescimento do mercado financeiro ocorreu naturalmente, pois a concentração de capital e investidores se localizava no coração da coroa.

     Hoje, o ambiente de negócios dinâmico e a previsibilidade do sistema legal britânico atraem banqueiros do mundo todo à cosmopolita cidade de Londres, que conta com 588 companhias estrangeiras listadas na sua bolsa, das quais 112 são originárias dos 27 países membros da União Europeia. As empresas europeias tomam vantagem da capilaridade do mercado de capitais da Grã-Bretanha para alcançar investidores. Como prova disso, 46% de levantamento de capital do bloco é realizado em Londres e 75% de derivativos europeus de câmbio e taxa de juros são transacionados lá. Como consequência, 35% das grandes operações financeiras da Europa são executadas na City.

     Os bancos não querem abandonar Londres, porém as barreiras devem superar as vantagens. Um estudo divulgado pela Boston Consulting Group afirma que custos dos serviços dos bancos de investimentos devem aumentar entre 3% e 8% para as instituições financeiras que mudarem suas filiais para um dos 27 membros do bloco. O mesmo valerá para o movimento inverso. Outro custo adicional para os bancos será a transferência de suas filiais, o que deve subtrair em torno de US$ 500 milhões por instituição e mais de 12 meses para estabelecer completamente suas operações.

     No final das contas, o prejuízo econômico atingirá ambas as partes. David Davis, negociador britânico designado para assuntos do Brexit, apoia-se no aumento dos custos de capital da economia europeia caso os bancos sejam obrigados a se deslocar para alcançar um acordo favorável a Londres. Porém, as negociações parecem caminhar em tom isonômico, fato nitidamente irreal. A insistência britânica em endurecer em uma posição de poder desproporcional é preocupante, posto que a União Europeia é a segunda maior economia mundial, com uma força de barganha gigantesca. A balança comercial entre as partes valida essa afirmação: as exportações do Reino Unido para o bloco representam 7,5% do PIB, enquanto a situação inversa corresponde a apenas 2,5%.

     Os problemas não param por aí. Com o término oficial do casamento com Bruxelas, Downing Street terá que firmar acordos bilaterais com potências como EUA, China e a própria União Europeia em condições próximas a vassalos. Em posição frágil em tratados tanto comerciais como de qualquer natureza, a Grã-Bretanha perderá preponderância. Anteriormente visto como arauto do capitalismo e defensor da globalização, o Reino Unido interpretará papel coadjuvante no cenário internacional. Paulatinamente, esse enredo vem se desenrolando desde 1945, mas agora perderá a última joia da coroa: o centro financeiro de Londres.

 

        Artigo publicado em abril/2018 na 20ª edição da Markets St.

 

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