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A maré chinesa

 

     Quem acompanha notícias de mercado provavelmente ouviu falar de negociações famosas, como: State Grid compra 100% da CPFL; Paper Excellence adquire Eldorado; Didi Chuxing é a nova dona do aplicativo 99Taxi. O que essas transações têm em comum? São empresas chinesas que saíram às compras de ativos no Brasil nos últimos anos. E a enxurrada de capital chinês não para por aí. Projetos faraônicos como Belt & Road Initiative e Made in China 2025 vem trazendo um verdadeiro tsunami de investimentos e aquisições em todo o mundo. Todavia, observadores internacionais apresentam um dilema: essa tendência é um mero reflexo do desenvolvimento da economia chinesa ou um movimento sagaz do Politburo encabeçado por Xi Jinping para dominar o mundo?

     Primeiramente, os fatos. De acordo com o Institute for Mergers, AcquisitionsandAlliances (IMAA), companhias chinesas desembolsaram US$ 511,9 bilhões em aquisições no exterior nos últimos três anos, um montante nada desprezível. Esses números com certeza tiram o sono dos discípulos de Peter Navarro, autor da obra conspiratória Death by China e diretor do Conselho Nacional de Comércio da Casa Branca. Mas um pouco de perspectiva é o suficiente para minimizar o pânico. No mesmo período, os Estados Unidos investiram US$ 1,05 trilhão, o dobro dos principiantes chineses. Além disso, a proporção do investimento chinês no exterior em relação ao PIB ainda está aquém das grandes economias. Companhias dos EUA e da União Europeia gastam 1,3% e 2,0% do PIB com fusões e aquisições em outros países, respectivamente, enquanto os chineses apenas 0,9%.

         Outra preocupação é com relação à origem desses recursos. Há uma crença generalizada que boa parte do capital seja proveniente do governo veiculado pelas empresas estatais conhecidas como State Owned Enterprises (SOE). Nesse caso, a compra de ativos estratégicos em outros países seria conduzida pela política agressiva de Pequim, que procura executar uma agenda de dominação global. Mito. A participação das SOE tem caído drasticamente. Em 2016, somente 6% das transações envolveram companhias estatais, segundo estudo da consultoria McKinsey. Até mesmo os fundos do governo têm pouca participação em investimentos fora das fronteiras da segunda maior economia do mundo.

          Esse interesse crescente dos empresários chineses em investir fora de seu país tem um argumento central mais pragmático do que teorias conspiratórias. Trata-se de expandir a penetração dos produtos chineses em um momento que o mercado doméstico começa a dar sinais de crescimento limitado. Há também a corrida para incorporar propriedade intelectual, aquisição de knowhow e tecnologia para garantir a competitividade do ambiente corporativo chinês.

           E o onde se encaixa o papel do governo? Não é nenhuma surpresa a forte influência do Partido Comunista Chinês na política econômica, com metas de crescimento rigorosamente traçadas. Mas com o florescimento do setor privado, o governo adotou uma postura mais voltada a facilitar a vida das empresas a fim de que elas possam produzir os resultados desejados no cenário macroeconômico. Até os bancos estatais, antes principais financiadores, reduziram sua importância nas aquisições internacionais. Hoje, muitas companhias recorrem a instituições financeiras ocidentais que disputam acirradamente para oferecer linhas de créditos atrativos.

           Antes uma terra de estatais e reprodutora de tecnologia licenciada, hoje a China é lar de grandes corporações privadas como Tecent, Huawei, Alibaba e Lenovo que investem pesadamente em pesquisa e desenvolvimento e adquirem empresas com tecnologia que possam absorver. São essas companhias que têm colocado em alerta países dependentes de exportação de tecnologia como Coréia do Sul, Alemanha e EUA. Essa tendência de aquisição de tecnologia está alinhada com políticas desenvolvimentistas de Pequim.

          A principal delas é o programa lançado em 2015 pelo secretário-geral do Partido Comunista Xi Jinping: Made in China 2025. O objetivo é transformar o país em um centro de desenvolvimento de alta tecnologia, especialmente em algumas áreas estratégicas como robótica, sistemas de informação, aviação e novas fontes de energia. Dessa maneira, a indústria chinesa reduz a dependência tecnológica e aumenta o valor agregado de sua produção. Porém, isto pode não ser benéfico para a cadeia de produção global. Países que dependem de exportar tecnologia e não pode concorrer com o baixo custo de produção chinês estariam em situação bastante complicada. Alguns casos já estão em discussão na OMC.

        Além de aquisições de empresas no exterior, existe o plano de investimento pesado em infraestrutura mundo afora. A melhor representação disso é o megaprojeto intitulado Belt & Road Initiative. Também conhecido como a nova rota da seda, a ideia é estabelecer rotas alternativas para o fluxo de mercadorias chinesas. O anúncio foi realizado em 2013 e atualmente está estimado em estratosféricos US$ 900 bilhões. Comparado ao Plano Marshall em escala, o projeto interligará, via rodovias, ferrovias e rotas marítimas, Ásia, África e Europa. O acordo para implementar os investimentos já conta com 68 signatários. O empreendimento está nas mãos do Governo Chinês que pretende alcançar dois objetivos principais.

         Os chineses querem criar uma rede logística menos dependente de rotas que atravessam o Mar do Sul da China. Esta região é motivo de tensão entre diversos países, inclusive a China, que disputam o direito de águas internacionais. Portanto, um bloqueio naval poderia prejudicar a passagem de navios chineses, afetando tanto o suprimento de matérias primas quanto o escoamento da produção. Uma medida bastante controversa de Pequim foi a criação de 7 ilhas artificiais na região, com bases militares instaladas para assegurar o controle do Mar do Sul da China para a passagem da frota mercante chinesa.

          Além disso, há o objetivo de aumentar sua influência em uma extensa zona que percorre Ásia Central, Oriente Médio e África. Nestas regiões encontram-se muitos países às margens da globalização que receberão os chineses de braços abertos. O investimento deve impulsionar as economias locais, formando uma pletora de súditos fiéis que podem ajudar a pender a balança a favor de Pequim em disputas comerciais com as potências ocidentais.

         Os investimentos chineses estão por toda parte, tanto provenientes de recursos privados como fundos do governo. Seja companhias privadas adquirindo ativos estratégicos ao redor do mundo ou aportes massivos de capital em megaprojetos de infraestrutura em países às margens da globalização, a verdade é uma só: a China está assumindo sua posição de preponderância político-econômica. A inquietação das potências ocidentais tem procedência, pois de fato há uma mudança em curso nos fluxos de poder global. E a maré de capital chinês pelo mundo não é a fonte de poder, mas sim apenas uma consequência.

 

       Artigo publicado em junho/2018 na 21ª edição da Markets St.

 

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