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A era do “des”: A desglobalização, a desunião europeia e o reino desunido

     A União Europeia é uma união econômica e política de 28 países. Suas origens nos levam à Comunidade Econômica Europeia (CEE) criada em 1957. O Reino Unido aderiu à CEE em 1973. Os britânicos estavam conscientes, no entanto, que a adesão implicaria na perda de certa soberania. Após a entrada no bloco, os eurocéticos começaram a queixar-se da perda de poder da nação e, por isso, em 1975, aconteceu o primeiro referendo pelo agora conhecido “Brexit” - abreviação das palavras Britain (GrãBretanha) e exit (saída). Como resultado, dois terços dos eleitores votaram pela permanência, que ia de acordo com a vontade de Margaret Thatcher.

     Atualmente, a história se repete, mas, dessa vez, tem um desfecho diferente. Após o plebiscito prometido pelo primeiro-ministro David Cameron, como consequência da sua vitória nas eleições parlamentares de 2015, no dia 23 de junho, por 51,9% a 48,1%, o eleitorado britânico decidiu sair da UE. Apesar de o plebiscito não ser “vinculante”, nunca um país membro havia deixado o bloco, que, desde seu início, só tem se expandido. Assim, contrariando as pesquisas e ignorando uma campanha xenófoba, que resultou na morte da parlamentar Jo Cox, esfaqueada por um extremista radical, mais de 17,4 milhões de britânicos optaram pelo Brexit.

     Desde a sua entrada na CEE, o Reino Unido foi o parceiro mais relutante da história da UE, nunca tendo abraçado uma identidade europeia. Suportado na força da libra esterlina, não adotou a moeda única, o euro, e não aceitou integrar o Acordo de Schengen, mantendo-se à margem da fronteira comum. Assim, tensões, como a desconfiança com a burocracia de Bruxelas, o orgulho pela identidade britânica, o controle de fronteiras e a defesa da soberania nacional, sempre fizeram parte dessa complexa relação com a UE.

     Desse modo, o plebiscito foi uma resposta à pressão exercida, principalmente, pelos eurocéticos, que argumentam que o crescimento crescente da UE fez com que essa tivesse cada vez mais controle sobre a economia e os indivíduos britânicos. Por isso, no início deste ano, David Cameron havia renegociado “condições especiais” para o Reino Unido dentro da união. Entre os principais privilégios conquistados, destacam-se: direito de limitar o sistema de cotas para o recolhimento de refugiados, a garantia de que não será discriminado por não integrar a zona do euro e proteções para Londres - mercado financeiro mais importante da Europa - frente às regulações financeiras do bloco.

     O impacto da saída pôde ser observado subitamente após o referendo e, certamente, continuará a longo prazo. Logo nas primeiras horas, as Bolsas do mundo todo despencaram. A libra esterlina atingiu o menor patamar desde 1985, as principais agências de classificação de risco fizeram uma revisão imediata da nota do Reino Unido, Cameron renunciou e um novo líder deverá ser escolhido em outubro. A política estagnada terá efeito na economia, especialmente no comércio e nas finanças, que estão integrados à Europa através de um conjunto de normas e tratados que precisarão ser desfeitos.

     As consequências continuam. Com 13% da população e 15% do PIB da UE, o Reino Unido é o terceiro maior integrante do bloco, aonde envia quase 50% de suas exportações. Estudos, no entanto, preveem o encolhimento do PIB entre 0,1% e 3,9% no Estado em 2017. Este, assim, contará com um período prolongado de incertezas, que levará à volatilidade financeira e, talvez, à recessão, de modo que Londres perderá o posto de segundo centro das finanças globais. Além disso, as fábricas localizadas no Reino Unido que dispersam a sua produção pela Europa, sem as vantagens oferecidas pelo mercado livre, procurarão outros lugares para se instalar, como já foi anunciado pela Nissan. A tendência é que a UE endureça as regras comerciais com o Estado.

     Como se não bastasse, de acordo com a análise feita pela Coface, seguradora de crédito especialista em riscos globais, os impactos previstos são “a queda no setor de construção, que sofrerá com a alta dos insumos importados, e um cenário negativo para setores competitivos da economia britânica, como o farmacêutico e o automotivo, que terão taxas aduaneiras mais elevadas”. Caso isso ocorra, as regras para importações devem ser ajustadas para favorecer o mercado interno, podendo levar à retração de mais de 10% das exportações de veículos. Quanto aos negócios externos, o Brexit deve enfraquecer a Holanda, Bélgica, Dinamarca e Suécia, que são extremamente dependentes dos ingleses.

     Apesar de causar o descontentamento dos principais líderes, como é o caso da chanceler alemã Angela Merkel, que, tendem a manter uma relação mais afastada do Reino Unido doravante, o Brexit evidencia uma tendência de um Estado mais alinhado com os EUA, onde o nacionalismo está, também, em pauta. O impacto imediato é na eleição americana que será realizada em novembro. Por incentivar o discurso de severas políticas migratórias, o candidato Donald Trump acabou aproveitando-se da decisão britânica. “Vejo um paralelo real, pois as pessoas querem recuperar seu país e a independência”, disse Trump referindo-se à saída.

     Ademais, pode, ainda, acontecer uma separação entre os próprios britânicos. A Escócia, que é majoritariamente contrária ao Brexit, poderá reconsiderar sua decisão de permanecer no Reino Unido, tomado no plebiscito de 2014, já que via a UE como uma “válvula de escape” para o domínio dos ingleses sobre seu país. A Irlanda do Norte, que recebeu a ajuda da UE para acalmar a relação entre católicos e protestantes, pode optar pelo mesmo caminho. Assim, esses dois países, que votaram pela permanência no bloco, podem fazer um plebiscito pela independência do Reino Unido.

     De acordo com os fatos supramencionados, percebe-se que as repercussões do referendo alcançarão proporções mundiais. O Brexit colocou em xeque os avanços da globalização, que, atualmente, pode ser vista mais como uma “desglobalização”. A decisão do Reino Unido pode influenciar separatistas de outros países como Itália, Holanda, Dinamarca, Suécia e França, onde a extrema direita, representada, no Reino Unido, pelo partido Ukip e pelo seu líder Nigel Farage, tem se fortalecido, principalmente, por conta do desemprego e da crise migratória. A presidente da Frente Nacional Francesa, Marine Le Pen, por exemplo, defendeu a realização de referendos nos países membros para a permanência na UE.

     No que tange ao Brasil, o país deve sofrer com as mudanças da política migratória que será reformulada pelo Reino Unido, afetando, assim, os brasileiros que moram na região. O comércio também será impactado, já que David Cameron era um dos responsáveis pelas negociações para o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que será ainda mais atrasado. As consequências para o país, como vistas, serão negativas, mas não totalmente. Com a possível redução do comércio entre Inglaterra e os países da UE, haverá o desaceleramento das transações globais, de forma a afetar as exportações brasileiras. Mas, com isso, o Federal Reserve deve adiar uma nova alta de juros nos EUA, já que alguns indicadores de crescimento vieram abaixo do esperado, culminando, possivelmente, numa redução dos juros no Brasil. Por fim, o discurso anti-imigração venceu o medo da estagnação econômica.

 

        Artigo publicado em setembro/2016 na 14ª edição da Markets St.

 

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