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Populismo: de Vargas a Bolsonaro

01/06/2018

     Conforme as eleições presidenciais se aproximam, o debate acerca das campanhas torna-se cada vez mais intenso. Nesse cenário, promessas como a imediata redução da taxa de desemprego e do déficit das contas públicas, além da erradicação da corrupção e da criminalidade, mesmo que rasas e simplistas, ganham força, o que altera consideravelmente o posicionamento ideológico do eleitorado. Assim, é possível observar que essas abordagens se encaixam perfeitamente em um conceito de difícil caracterização, mas que está presente nos debates eleitorais no Brasil e no mundo: O populismo.

       A compreensão do populismo é extremamente ampla, podendo ser utilizada por todo o espectro político, seja de direita, de esquerda, democrático ou autoritário. Apesar dessa abrangência, a forma mais utilizada para conceituar o populismo, especialmente no Brasil, é, segundo o cientista político e colunista do The Guardian, Cas Mudde, a de uma vertente política rasa que se vale da concepção popular de que sempre há o embate entre “nós”, o grupo com o qual o populista se identifica, contra “os outros”. Ademais, é característico do populismo a proposição de soluções simplistas para questões complexas e a obediência do governante à vontade do “povo”. Como pode ser observado, o populismo é extremamente vago e genérico, mas com grande impacto no eleitorado.

       É importante frisar que o populismo há muito tempo é utilizado como ferramenta eleitoral no Brasil. O Estado Novo de Getúlio Vargas é um exímio exemplo. Getúlio sempre se apresentou como um líder que entende os anseios da população – basta olhar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), elaborada em 1943. A criação do salário mínimo foi outra ação de caráter populista que marcou a carreira política de Vargas, garantindo sua posição hegemônica na memória do eleitorado e na política nacional. Além disso, o “pai dos pobres” também flertava com a exaltação da sua própria imagem, característica que o aproximava até dos líderes populistas europeus.

      Desde essa época, o populismo funcionou com relativo sucesso, principalmente em decorrência de seu inerente caráter pessoal, isto é, as consequências das disputas políticas deixam de interferir apenas em questões gerais da sociedade e passam a interferir diretamente no cotidiano do eleitor, graças a retórica do “nós” contra “eles”. Outro fator que promove o sucesso do populismo é a pouca necessidade de repertório político do eleitor para entender e defender os ideais populistas, possibilitando, portanto, maior penetração.

       Tal facilidade de penetração já foi percebida por diversos candidatos ao Palácio do Planalto, sendo o exemplo mais atual, Jair Bolsonaro, que concorre pelo Partido Social Liberal (PSL). Apesar de utilizar o discurso populista ao abordar quase todos os temas do debate político, Bolsonaro recorre a essa estratégia principalmente no que tange a economia.

       Há dúvidas se Bolsonaro, caso eleito, conseguirá formar uma base aliada sólida que o permita implementar reformas estruturais e, principalmente, enfrentar a polêmica, mas necessária, reforma da Previdência. Afinal, há uma grande diferença entre conseguir convencer por meio de ideologias rasas e simplistas um eleitorado descrente na política e convencer um Congresso Nacional fragmentado e repleto de interesses conflitantes.

         O populismo de Jair Bolsonaro adquire contornos ainda mais preocupantes ao se analisar as propostas – ou, melhor dizendo, a falta delas – que concernem à política econômica. O candidato é visto pelo mercado como defensor de políticas econômicas com viés nacionalista e desenvolvimentista, base da economia durante o Regime Militar. Por esse motivo, segundo pesquisa recente com investidores institucionais, uma eventual eleição de Bolsonaro poderia causar a desvalorização do real frente ao dólar e a queda do Ibovespa para a faixa dos 55/65 mil pontos. Acrescenta-se a esse cenário a falta de capital político para prosseguir com as reformas econômicas, aumentando ainda mais as incertezas sobre o candidato.

      Diante desse contexto adverso a sua candidatura, Bolsonaro tenta conseguir o apoio do mercado ao buscar um Ministro da Fazenda que seja favorável a este. O nome mais cotado para essa posição é o economista Paulo Guedes, Ph.D. pela Universidade de Chicago e fundador do Banco Pactual. Guedes destaca-se pelo pensamento liberal e pelo posicionamento favorável às privatizações, sendo alvo de interesse do mercado. A despeito dessas sinalizações pró-mercado, a pauta econômica nunca foi, até o momento, ponto principal na campanha de Bolsonaro. O candidato já declarou que pouco sabe sobre economia e que cabe a sua equipe o planejamento sobre a política econômica, utilizando novamente elementos da retórica populista – soluções simplistas para questões complexas – para delinear sua estratégia na corrida presidencial.

       Em suma, o ponto a ser refletido é que, mesmo com tais discursos polêmicos e a incerteza referente às suas propostas sobre a economia, Bolsonaro ainda se coloca como forte candidato ao Palácio do Planalto, mostrando a força e a abrangência que o populismo pode alcançar em momentos de incerteza e tensão social como os que antecedem as eleições presidenciais no Brasil. Não há dúvidas: o populismo será a corrente ideológica que exercerá maior influência em 2018.

 

        Artigo publicado em junho/2018 na 21ª edição da Markets St.

 

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