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     Qualquer navio precisa de âncoras para se estabilizar em alto mar. A economia, se pensada como um navio, não seria diferente.  Encontrar qual tipo de âncora usar para estabilizar uma economia é a tarefa árdua que cabe aos formuladores de política econômica. Essa âncora servirá de referência para que os agentes façam suas expectativas da melhor maneira possível, ao acreditarem que quem a lançou será capaz de fazê-la valer. Até aqui já temos dois problemas: 1) A âncora escolhida foi a correta? 2) Os formuladores de política contam com a credibilidade dos agentes de que cumprirão com o que prometeram?

     Quando da implantação do Plano Real e do combate à hiperinflação, a âncora nominal do Brasil era o câmbio fixo. Entretanto, uma vez que o câmbio foi forçado a flutuar e depreciou-se, pressões inflacionárias voltaram a surgir e uma nova âncora se fez necessária. Nesse contexto, em meados de 1999, foi colocado em prática o Regime de Metas de Inflação – um dos pilares da macroeconômica do país. Juntos dele, o câmbio flutuante e a responsabilidade fiscal compõem o famoso Tripé Econômico, responsável pela manutenção de um ambiente econômico estável e previsível.

     Para que esses objetivos sejam plenamente atingidos, é fundamental que a autoridade monetária conte com a credibilidade dos agentes. Afinal, um sistema baseado no tripé olha para o futuro – para as expectativas desses agentes. Logo, se não há credibilidade na equipe que conduz a política monetária, as expectativas podem se descolar das metas apresentadas, ocasionando possíveis pressões inflacionárias, por exemplo.

     Durante a administração passada do Banco Central, tivemos um bom exemplo de como esse desvio é problemático. Em meados de 2011, o Bacen colocou em prática um ciclo de expansão monetária logo quando as expectativas de inflação já caminhavam para acima da meta. Cedendo a pressões externas, os juros foram baixados e a economia superestimulada. Como era de se esperar, as expectativas ficaram cada vez mais acima das metas de inflação. Quando isso ocorre, a capacidade dos agentes de olhar para o futuro ao escolher preços se perde e eles passam a olhar para o passado, tornando a inflação cada vez mais inercial.

     Trocando em miúdos: naquela época, decidia-se preços com base na inflação passada, que era cada vez mais alta, em vez de na inflação futura. Quando isso ocorre, a política monetária aos poucos vai perdendo sua eficiência. Somam-se a isso irresponsabilidade fiscal e intervenções no mercado de câmbio e tem-se a derrocada dos três pilares. Que pesem outros fatores, mas o resultado final desse processo foi inflação de dois dígitos.

     Para reverter esse quadro, foi necessário um choque de credibilidade. A equipe que hoje comanda o Banco Central mostrou-se apegada às técnicas consagradas e escolheu buscar a meta de inflação mesmo em um cenário de crise, mantendo inicialmente os juros em altos patamares. Com isso, conseguiu reconquistar a credibilidade do mercado e fazer com que, aos poucos, as expectativas de inflação voltassem ao centro da meta. No fim do dia, quando as expectativas já estavam de novo ancoradas à meta, pôde baixar os juros e voltar a estimular a economia. Tudo isso só foi possível graças à confiança depositada na atual administração da instituição.

     Analisando esses dois cenários, fica clara uma lição que aprendi com meu primeiro professor de Macroeconomia: uma boa autoridade monetária é como Ulisses em sua Odisseia, que quando ameaçado pelo canto da sereia, tapou os ouvidos de toda sua equipe e prendeu-se ao mastro de seu navio para, mesmo ouvindo o canto, não cair em tentação. Ou seja, uma boa autoridade monetária é aquela que se mantem firme em seus objetivos declarados mesmo em situações de conflito, conquistando a confiança dos agentes que dela dependem.

 

 

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