As duas Coreias

13/03/2018

     A península coreana passou por um raro período de otimismo durante as Olimpíadas de Inverno. Ambas as Coréias entraram sob uma só bandeira na abertura. Pela primeira vez em décadas uma alta oficial norte coreana cruzou o Paralelo 38. Nenhum tweet ou declaração explosiva estragou a festa. Um verdadeiro sucesso para o presidente Moon Jae-in e seus planos de reduziras tensões na área, e um alarme para uma Casa Branca.

     Que as reações de Soul e Washington sejam tão diferentes é inédito. Desde o fim da Guerra da Coreia os países são aliados inseparáveis, mantendo não só laços diplomáticos, comerciais e militares fortes, mas também os mesmos planos para a área: a manutenção do cessar fogo, uma Coreia do Norte não nuclear e, mais como instrumento retórico do que objetivo prático, a reunificação. Historicamente, os meios de atingi-los foram frutos de ações coordenadas dos dois países, com a ocasional participação do Japão. Com objetivos, interesses e ações tão bem alinhados, a aliança podia muito bem ser considerada eterna.

     O status quo que imperou na Coréia por décadas é filho dessa aliança, e das “regras do jogo” que ela institui. O cálculo é, para todas as partes, surpreendentemente simples: se os americanos tentarem derrubar o governo norte coreano, eles retaliariam imediatamente destruindo Seoul, Tóquio e tantas outras cidades importantes quanto possíveis na região, algo fácil com os mísseis convencionais de que eles dispõem. Isso, porém, não dá carta branca ao Norte. Como uma não reação americana frente a um ataque indicaria ao mundo que a Casa Branca pode ser imobilizada por meio de reféns, uma resposta proporcional se faria necessária. Frente aos custos de um ataque, ambos os lados optam por nada fazer.

     Então, em um ano a Casa Branca viu a maior mudança na orientação de sua política externa em décadas, e no seguinte Park Geun-hye, a presidente da Coreia do Sul, foi destituída em meio a um escândalo que pôs milhares de sul coreanos nas ruas. Os novos governos não podiam ser mais diferentes.

     Moon Jae-in, o novo presidente da Coreia do Sul, é um pacifista de longa data que prefere tratar o Norte com políticas de apaziguamento e diplomacia. Foi sua aversão a um conflito armado que o motivou, em 15 de agosto, a invocar seu direito a veto sobre “qualquer operação militar dos EUA” na região, que, como fizeram questão de dizer diversos diplomatas americanos, simplesmente não existe. Exageros como esse dão mostras do descompasso estratégico entre os dois governos.

     Enquanto isso, Trump ameaçava o “pequeno foqueteiro” com seus “fogo e fúria”. No campo prático, pelo menos parte dessa retórica está se concretizando. Após confirmar que “nada está fora de cogitação” em maio, a Casa Branca ventilou a possibilidade da adoção da “estratégia do nariz sangrando”.

     A ideia por trás desse plano, é que seria possível se aproveitar das “regras do jogo” para lançar um ataque estratégico contra a Coréia do Norte sem retaliação. O cálculo: se uma ação americana destruir parte do armamento e instalações nucleares – “sangrasse o nariz” – do Norte sem ameaçar o regime de Kim Jong-un, ele não poderia reagir sem criar uma situação de escalonamento que acabaria com sua derrubada. Trata-se de uma aposta de que a tolerância dele, sua “linha vermelha”, poderia ser testada sem ser violada. O ganho: redução temporária do arsenal nuclear norte coreano. As perdas possíveis: Seoul e Tóquio, com sorte. Não surpreende que a estratégia tenha poucos defensores além de Henry Kissinger.

     A crescente divergência entre os interesses sul coreanos e americanos enfraquece a posição de ambos na região, e facilita a vida de Kim Jong-un. Mais importante: fortalecem, não pela primeira vez, a China, que pode se apresentar a Moon Jae-in como uma possível parceira no apaziguamento do Norte.

 

 

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